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Os fatores que impactam na percepção de valor dos torcedores parte 3 : Campeonatos



Há um mês iniciei uma série de posts referentes aos fatores que impactam na percepção de valor dos torcedores. Após uma semana com clássicos, final da Taça Guanabara e a primeira rodada da Copa Libertadores, gostaria de compartilhar com vocês minha visão sobre o comportamento do torcedor referente à percepção de valor dos campeonatos.

Tenho a opinião que os campeonatos são a grande vitrine dos times, pois são nos campeonatos que existem as disputas. Muito além de um jogo isolado, nos campeonatos é onde as marcas são criadas e fortalecidas, com as conquistas, os jogos memoráveis e as grandes viradas. São nos jogos memoráveis disputados nos campeonatos que a grande maioria das pessoas desperta definitivamente o gosto por torcer para um time.

Na minha pesquisa de mestrado eu coloquei uma questão onde os respondentes colocavam em ordem decrescente os campeonatos que mais eles vão aos jogos. O resultado foi o seguinte:

1) Copa Libertadores da América
2) Campeonato Brasileir
3) Copa do Brasil
     4) Copa Sul Americana
     5) Estaduais
     6) Copas Regionais (Nordeste / Verde)

Para validar essa ordem de preferência, no ano de 2016 eu coletei os dados dos 5 times que disputaram a Copa Libertadores e comparei com a média de público pagante, renda bruta, taxa de ocupação e ticket médio nos demais campeonatos em que as 5 equipes disputaram na temporada. Os resultados foram os seguintes:

Libertadores
Público: 36.338
Renda: R$ 2,3 milhões / jogo
Taxa de Ocupação: 77%
Ticket Médio: R$ 62,75/ jogo

Campeonato Brasileiro
Público: 24.692
Renda: R$ 1,1 milhões / jogo
Taxa de Ocupação: 57%
Ticket Médio: R$ 40,67/ jogo

Copa do Brasil
Público: 27.071
Renda: R$ 1,5 milhões / jogo
Taxa de Ocupação: 54%
Ticket Médio: R$ 48,79/ jogo
OBS: Grêmio e Atlético Mineiro fizeram a final.

Estaduais
Público: 17.825
Renda: R$ 735 mil / jogo
Taxa de Ocupação: 40%
Ticket Médio: R$ 37,28/ jogo

No último campeonato brasileiro da Série A,  a maior média de público foi nos clássicos (24.798/ jogo e taxa de ocupação de 62%), além disso, na semana passada tivemos 3 clássicos: Fla x Flu, Grenal e Corinthians x Santos. Nesses 3 jogos tivemos um total de 104 mil pagantes, uma média de 34,8 mil/jogo, média de público muito acima da média total dos campeonatos Carioca, Gaúcho e Paulista. Na última quarta-feira o Flamengo levou 54 mil pagantes ao Maracanã no seu primeiro jogo na Libertadores.

Baseado nesses dados é possível perceber que o torcedor dá mais valor aos campeonatos onde existe jogos eliminatórios (onde há maior emoção e incerteza) e em campeonatos em que o vencedor e os melhores classificados sejam premiados para disputar torneios internacionais. Os clássicos também são valorizados pelos torcedores pela rivalidade dentro da cidade, independente do campeonato em disputa.

Cabe aos gestores dos campeonatos, juntamente com os dirigentes dos clubes, avaliar detalhadamente a intenção de compra do torcedor e reavaliar o atual calendário, visando aumentar a atratividade dos jogos dentro dos campeonatos, dando maior espaço para os campeonatos que os torcedores dão mais valor, e reduzindo e/ou eliminando os menos atrativos.

No caso do Campeonato Brasileiro série A e B, deveriam ser disputados durante todo o ano, com aproximadamente 100% dos jogos aos finais de semana, onde há mais público do que em jogos de Campeonato brasileiro no meio de semana. Na Série A , a média de público pagante  foi de 15% superior no final de semana nos últimos 3 anos.

Seria interessante pesquisar com o torcedor se atual fórmula de disputa é a mais atrativa mercadologicamente ou se seria atrativo as proposições abaixo:

- Uma final entre o campeão do primeiro e segundo turno;

- Uma eliminatória entre o décimo sétimo e o décimo oitavo colocados da Série A e o terceiro e o quarto colocados da Série B para disputar o acesso;

- Com o aumento de vagas para a Libertadores para 6 times, poderia ser atrativo uma disputa entre o segundo e terceiros colocados do primeiro e do segundo turno para ver quem vai direto para a fase de grupos.

Referente aos estaduais, como o torneio não classifica para campeonatos internacionais e não tem grandes marcas como o Campeonato Brasileiro, seria interessante, para manter a tradição, que fossem disputados em no máximo um mês, num sistema eliminatório, para os times fazerem os ajustes finais para os torneios nacionais e regionais.

Os estaduais poderiam se transformar na quarta divisão e jogado de março a novembro, onde os melhores classificados teriam como prêmio jogar a terceira divisão regional, disputar a Copa do Brasil e os estaduais preparatórios junto com os times da Série A e B em fevereiro. Dessa forma, cerca de metade dos jogadores que param de jogar profissionalmente após o término dos estaduais em maio, poderiam ter emprego durante toda a temporada.

Como em qualquer mercado, as grandes marcas disputariam os grandes mercados e as marcas de menor apelo disputariam regionalmente, podendo ser campeões, gerar mais receitas, atrair mais torcedores, despertar rivalidades regionais.

Sabemos que o Brasil é um país continental onde há diferentes interesses devido às várias culturas, por isso é importante adequar os campeonatos às identidades e ao valor que o torcedor percebe, podendo transformar o atual cenário em um grande potencial gerador de receitas, empregos para vários segmentos além do esporte. Para isto acontecer basta ter vontade política e visão de negócio, o oposto do que vemos atualmente na gestão esportiva brasileira.


Gostaria que você enviasse seus comentários sobre esse tema que desperta muita discussão e diferentes pontos de vista.


Post da semana na fanpage Marketing Futebol Clube

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Os fatores que impactam na percepção de valor dos torcedores parte 2 : Precificação

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Como ponto de partida dessa análise, vamos avaliar o comportamento do torcedor do São Paulo em alguns jogos no Morumbi:
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