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Os Alienistas

Morumbi Final Palmeiras x Corinthians 1993


Tudo começou em 1995, na final da Supercopa São Paulo de Juniores. Após o gol de ouro que deu o título ao Palmeiras, os palmeirenses invadiram o gramado para comemorar e foram provocar os são paulinos, que, aproveitando a pouca presença de policiais, invadiram o gramado, transformando o campo de jogo na primeira batalha campal entre torcidas organizadas transmitidas ao vivo pela TV. 

As consequências foram a morte do garoto Márcio Gasparin, a condenação de Adalberto Benedito do Santos e, pela primeira vez, as organizadas Mancha Verde e Independente foram extintas pelo promotor público Fernando Capez, que comentou na época: “Era necessário um tratamento de choque.”

Como na belíssima obra O Alienista, de Machado de Assis, a partir dessa época começou a batalha dos Alienistas contra a festa popular nas arquibancadas do Brasil. Depois dessa medida, as bandeiras, instrumentos, faixas, papéis picados, rojões, fogos de artifício, sinalizadores foram proibidos, além de não poder vender cerveja. A grande festa de manifestação popular começou a perder seu brilho.

O que nossa geração presenciava nos estádios era uma grande festa. Quando era clássico no Morumbi havia uma disputa antes dos jogos para saber quem teria mais torcida nas arquibancadas. Qual torcida iria fazer a festa mais bonita. Depois vieram os bandeirões. Para muitos torcedores, essa parte do jogo era tão ou mais importante que o jogo em si. Uma manifestação popular de um esporte que ficou forte devido à classe trabalhadora.

Torcida do Corinthians Morumbi anos 70


Na Europa o hooliganismo era combatido ao extremo, principalmente após  o desastre de Hillsborough em 1996. O relatório Taylor revolucionou a forma de se fazer futebol na Inglaterra, com punições severas para os hooligans acompanhadas de uma nova concepção de estádios, sem grades, com a elitização dos torcedores através de preços mais altos, afastando a classe trabalhadora das novas arenas.

Esse movimento se espalhou pelo mundo, chegando ao Brasil na década de 2010, com as novas arenas construídas para a Copa do Mundo de 2014. Com o discurso de que os custos elevados demandavam preços mais altos, os ingressos foram majorados, trazendo junto os planos de Sócio Torcedor, que devido a descontos, é possível obter ingressos a preços mais baixos ou até sem custo, dependendo do plano escolhido.

Geraldinos do Maracanã
Discursos como "Seja sócio torcedor e ajude seu time" viraram mantra nos estádios e novas arenas. Como consequência, as classes trabalhadores mais simples, que não podem pagar um plano de sócio torcedor, e que faziam parte significativa das arquibancadas, foram afastadas. Locais marcantes como a geral do Maracanã e os Geraldinos ficaram apenas na memória, matando com isso parte da alma de um jogo de futebol, como bem descrito nesse post O Maracanã Morreu.


O professor e pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, Bernardo Buarque de Holanda menciona:

"Com essas medidas os estádios brasileiros ficaram pouco atraentes  e as pessoas têm pouco engajamento com o espetáculo. A Alemanha, reorganizou os estádios, mas manteve a festa das torcidas".

Muralha Amarela Torcida Borussia Dortmund - Alemanha anos 2000

Com as novas arenas, somadas às medidas para combater a violência nos estádios, a festa acabou, transformando as antigas arquibancadas em locais esterilizados, livres das classes mais simples, que eram as possíveis causas da violência e mau comportamento nos estádios. Além disso, desde meados de 2016 os clássicos em São Paulo são com torcida única.

Agora os novos torcedores/consumidores podem frequentar as arenas, com seus smartphones de última geração para postar selfies com sorrisos no rosto mesmo com o time perdendo e precisando do apoio do seu torcedor mais leal, aqueles que ficaram de fora da festa. Além de todas as proibições anteriores, agora nem com livro é permitido entrar.

Os jogadores já começam a sentir a falta dessa energia que pulsava das antigas arquibancadas devido a esse novo público torcedor/consumidor. Na Inglaterra já estão percebendo o "Clima de Livraria" nas arenas inglesas, onde esse novo torcedor paga por um entretenimento. Caso não lhes agradem, vão embora mais cedo, ou demoram para voltar do intervalo. O autor Paul Maclnnes menciona esse fato no artigo que " A Premiere League precisa lutar contra a maré de torcidas cada vez mais silenciosas".


No Brasil, os arredores do Allianz Parque acolheram esse torcedor, que impedido de entrar por questões financeiras, abraçou seu time do lado de fora, torcendo como se estivesse lá dentro, enviando suas energias e sua alma para os jogadores, mesmo que tenham um muro de metal a sua frente.

Torcida do Palmeiras na Rua Palestra Itália - Final da Copa do Brasil 2015


Os Alienistas não se contentaram, e,  há cerca de um mês, proibiram que torcedores sem ingresso circulem nos arredores do Allianz Parque. O promotor Paulo Castilho e seus asseclas encarnaram de corpo e alma a personagem do Dr. Simão Bacamarte. Na visão desses senhores, todos são uma ameaça, não podem conviver com os novos torcedores/consumidores. Creio que devem pensar que todos eles precisam ficar confinados na "Casa Verde". 

Já que não é permitido a presença dos loucos pelos seus times nas novas arenas, nem nos seus arredores, a nova forma de chegar perto dos seus ídolos foi transformar os aeroportos em arquibancadas. 

Torcida do Flamengo - Aeroporto Santos Dumont 2016



A torcida do Flamengo e recentemente a do Palmeiras fizeram um show, com bandeiras, instrumentos, sinalizadores entre outros, Mais importante do que os adereços, o que vimos nos aeroportos foi um resgate da alma e do espírito de arquibancada que tanto tivemos até os anos 90. Essas manifestações foram elogiadas e admiradas por praticamente toda a sociedade.

Torcida do Palmeiras - Aeroporto de Congonhas 2016

Muito cuidado nessa hora, pois os Simões Bacamartes estão a solta e muito breve não será possível ir ao aeroporto fazer o que não se pode mais fazer nas arenas, nem no seu entorno. Depois os Alienistas vão proibir ver de jogos nos bares de toda a cidade, além de não poder mais gritar nas sacadas e janelas das casas e prédios. Mais alguns anos não poderemos nem escrever "Gol" nem "Chupa" nas redes sociais. 

Para evitar problemas vão proibir a transmissão de jogos pela TV, rádio, internet. Os Bacamartes vão proibir torcida, e no final, vão descobrir que a causa de tudo isso é o jogo de futebol, que por decreto será proibido no Brasil, tanto profissional, como amador, nas ruas, quadras, praias, quintais e calçadas. Nem jogo de botão será permitido, juntamente com os games.

Dessa forma teremos o mundo perfeito para os Alienistas, que talvez percebam que, a grande maioria dos brasileiros é louca  por futebol, e vão voltar a permitir tudo de novo, e eles que serão confinados na "Casa Verde", para nunca mais saírem de lá, pois a alma do ser humano precisa de poesia, festa.  Somos seres errantes, vivemos nossa vida numa constante dualidade,  gostamos demais de comemorar um gol do nosso time, seja onde for, porque dentro da nossa alma, sempre sentiremos nosso coração bater forte em cada segundo que lembramos de momentos tão marcantes como o grito de gol numa final de campeonato.


“A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.” 



Comentários

  1. Excelente texto Marcelo, já falei em alguns grupos, que a barbárie de 1995, não foi destruída no ninho. O que aconteceu ? Temos homens de 21 anos, que nunca viu e não sabem o que é uma festa das bandeiras, uma chuva de papel para recepcionar seu time, uma bateria de escola de samba nas arquibancadas. Mas viram e sabem como as instituições educacionais e legisladoras são falidas. Eles acompanharam a destruição das escolas públicas, sabem seus direitos mas não sabem seus deveres. E são adultos que buscam um local para extravasar sua energia, suas vontades. E nada melhor que em uma TO onde tudo pode a preço de devoção e fidelização canina a uma instituição que hoje é um braço armado do crime organizado. Uma pena

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