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Sound + Vision





Thank you!!!

As luzes se apagaram e vi sua silhueta rapidamente saindo do palco, deixando apenas um rastro do seu brilho na escuridão do Parque Antártica. 

Todos ficaram esperando um bis que nunca aconteceu. Foi um show morno, cheio de hits, mas sem alma, parecia que Bowie estava lá cumprindo tabela. Foi essa a minha percepção, ainda mais para um Palmeirense que amargava 14 anos de fila. Ainda mais para quem esperava algo similar a teatral Glass Spider Tour em 1987, que eu tinha visto em vídeo recentemente. 

Eu não era um grande fã de Bowie, e fui apresentado a sua obra pelo Walter Músico. Sim, Músico era o sobrenome de um cara super descolado que trabalhava comigo em um insalubre laboratório de análise química no bairro do Belém. Embalados por cianuretos, ácidos nítricos, banhos de cromo, mas também pelo som do Bowie, fazíamos controle qualidade, ajustes nos banhos químicos e dividíamos nossos sonhos e frustrações de garotos suburbanos da ZL durante os acordes de Starman.

Foi assim que os grandes clássicos de Bowie chegaram até meus ouvidos, cansados e carentes por novos sons após uma década mergulhada na grande era do heavy metal. 

Heroes, Space Oddity, Rebel Rebel , Ziggy Stardust, Young Americans, This is not America, Jean Genie, Starman, Life on Mars? ......

Depois dessa imersão, o primeiro CD que comprei na minha vida foi o platinado Let´s Dance de Bowie. Reconheço que gostei, mas nunca chegou perto do que o heavy metal traz de emoção, fazendo o sangue correr mais forte pelas veias junto com solos de guitarra e gritos dos grandes vocalistas de uma geração que começa a nos deixar aos poucos. Era uma época das mudanças de vento dos anos 90, que varreram o mundo com a queda do comunismo na Europa Oriental e que também chegava até aquele garoto de 21 anos cheio de sonhos.

Ingresso David Bowie
Sound + Vision Tour
Depois de me encantar com a belíssima produção nos anos 70 e 80 e estar super ansioso para ver o primeiro show fora do heavy metal em minha vida, o Bowie que chegou até mim deixou a desejar. Com exceção do Parque Antártica, que era meu habitat há 10 anos, onde cantava, vibrava e sofria regularmente com meu Palmeiras, as pessoas, o estilo, as músicas pareciam desconexas do meu antigo ambiente rock and roll. Mas eu e meu brother Cabeça estávamos lá para ver um dos grandes ícones da música pop.

Após aquele frio Thank You!!! sem um mísero bis, mal fui apresentado ao seu trabalho, e fiquei decepcionado ao sair do Parque Antártica, algo que já era comum naquele estádio para quem via o decepcionante Palmeiras do início dos anos 90. Após o show fechei os ouvidos para Bowie, como se fosse a minha resposta pela frieza do seu show e de como nos sentimos.

24 anos depois, ao ir à magnífica exposição do gênio Stanley Kubrick no MIS, vimos que a próxima atração seria uma grande exposição sobre David Bowie. Para mim, aquele "Thank You" de 1990 ressoou em meus ouvidos novamente e, pelo menos para mim, aquele bis, que esperava ansioso na gélida noite daquele longínquo domingo, poderia ser compensado de alguma forma.

Fomos a exposição logo no primeiro sábado após a abertura. E não me arrependi do que vi. Foi uma das melhores exposições sobre um artista que tive a oportunidade de ir. Toda a sua carreira estava exposta em várias salas. Desde o início de sua carreira, passando pelos seus grandes momentos, tudo estava ali para poder apreciar. Suas grandes turnês, as roupas dos shows, vídeos da época, a trilogia de Berlim, suas atuações no cinema, a máquina de criar palavras, letras originais.

Confesso que fiquei emocionado ao ver aquela riqueza de produção artística em que tive contato naquelas horas. Após 24 anos, finalmente tive um bis que esperava avidamente. E esse bis foi muito melhor, e pude me reconciliar com Bowie. Muito mais pela Vision do que pelo Sound, mas muita vezes a ordem dos fatores não altera o produto.

Exibição David Bowie - MIS 2014

Na última segunda feira David Bowie nos deixou de uma forma muito similar como o final do show no Parque Antártica, um curto tweet de seu filho informando a todos sobre a tragédia. Bowie saiu do palco da vida, deixando apenas um rastro do seu brilho na escuridão dos nossos corações e mentes. Dessa vez ele nos deixou um bis novo em folha com seu álbum Blackstar. Pela luz que sua carreira trouxe para o mundo, o álbum bem que poderia se chamar Shining Star.

Ainda bem que tive a possibilidade de me reconciliar com Bowie em 2014, tanto que fiz questão de homenageá-lo com essas humildes palavras.


 "RIP David Bowie, another starman waiting in the sky" 
Luciana Penna









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