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Dom Kixute de la Cancha




Belo Horizonte, 08 de Julho de 2014

Aos 22 minutos do primeiro tempo Klose fez o segundo gol da vitória da Alemanha sobre o Brasil no já histórico e inesquecível Brasil 1 x 7 Alemanha. Este jogo já entrou para o hall dos jogos que ficarão eternizados na história das Copas.  Após esse gol, conforme as declarações do treinador e dos jogadores da seleção brasileira, o time entrou em pane e que culminou em mais 3 gols nos 6 minutos seguintes.

Durante esses minutos eu e os milhões de espectadores assistimos atônitos aos alemães passearam pelo gramado do Mineirão e as primeiras reações, desabafos e pontos de vista começaram a explodir nas redes sociais. Apesar de já ter convicção que o time do Brasil não estava em condições de ganhar o título, não esperava ver o atropelo que ocorreu no jogo de ontem.

Passados os 90 minutos e sacramentada a maior derrota da história da seleção brasileira, muitos sentimentos e reflexões afloraram em minha cabeça, num turbilhão de ideias, constatações e possíveis soluções para o futebol brasileiro, que em várias vezes já expus neste espaço.

Por que o Brasil ainda se autodenomina o país do futebol ?

Por que a cada ano os jogos do campeonato brasileiro ficam piores e sem atrativos?

Por que o estilo de jogo que sempre caracterizou o futebol brasileiro não é visto mais nos times e na seleção?

Por que torcemos com frieza para a seleção em comparação aos nossos times?

Por que os estádios estão cada vez mais vazios?

Por que os garotos de 10 a 15 anos cada vez mais não torcem para nenhum time?

Por que nos contentamos em ganhar jogos e títulos apenas por ganhar, sem se importar com filosofias de jogo, não nos importando com os meios para se ganhar, mas apenas com os fins?

Não tenho essas respostas, mas os 6 minutos mais trágicos do futebol brasileiro podem e devem buscar respondê-las a partir de hoje.

A tragédia de Sarriá em 1982, naquele fatídico dia em que Paolo Rossi fez 3 gols e mandou uma das melhores seleções brasileiras da história pra casa, deixou feridas abertas e que ainda hoje continuam afetando a forma de se jogar futebol no Brasil. A partir daquela tarde em Barcelona o futebol brasileiro nunca mais foi o mesmo e até hoje pagamos por isso. 

Enquanto nos encantamos e valorizamos  o futebol praticado pelos espanhóis e alemães, temos um sentimento de nostalgia e revolta ao ver as enormes semelhanças dessas duas escolas com o futebol praticado por aquela mágica seleção de Telê Santana.

No célebre livro Dom Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes, o protagonista mergulha na literatura em busca de uma solução para seus problemas. Sua leitura acaba se tornando uma obsessão , tanto que acaba enlouquecendo , e decide se tornar um cavaleiro andante, como nos livros que ele costumava ler, distorcendo a realidade, criando um mundo da fantasia e do sonho, totalmente fora da realidade.

O futebol brasileiro ontem foi atacado por Don Kichute de la Cancha, tomando 7 gols que devem servir como chutes no traseiro, na cara, no estômago, no saco, na canela, na cabeça e principalmente na alma do futebol brasileiro. Doeu e ainda vai doer muito esses chutes. 

As conquistas de 1994 e 2002 serviram para que o futebol brasileiro ainda vivesse num mundo do sonho e de fantasia, mas desde 1982 entramos em uma distorção da realidade e que estamos pagando um altíssimo preço nos dias de hoje.


"À força de tanto ler e imaginar, fui me distanciando da realidade ao ponto de já não poder distinguir em que dimensão vivo." - Dom Quixote de la Mancha


Que esses seis minutos sirvam para despertar da letargia todas as pessoas que queiram mudar o cenário atual em que o futebol brasileiro está inserido, e resgatar o estilo de jogo que sempre caracterizou a escola brasileira e que hoje são copiadas e praticadas pelos alemães e espanhóis.

Que tenhamos humildade para reconhecer que hoje o Brasil não é mais o país do futebol dentro de campo, pois fora de campo nunca foi. Que as melhores práticas dos países que estão na vanguarda do futebol mundial possam ser implementadas no nosso futebol e que exista uma mobilização urgente para resgatar o que ainda pode ser possível de ser resgatado em termos de estilo de se jogar futebol no Brasil.

Precisamos resgatar a nossa escola de jogar futebol que sempre nos caracterizou. Caso isso seja possível com certeza irá atrair novamente os torcedores para os estádios e criará uma ligação mais forte e identificada com seus times e com a seleção. Material humano para isso dentro de campo com certeza o Brasil sempre terá. Se não querem trazer estrangeiros para comandar os times dentro de campo, que tragam profissionais de sucesso fora de campo, para disseminar uma nova foram de se produzir e consumir futebol no Brasil, pois caso contrário mais vexames virão. 


"Quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando se sonha juntos é o começo da realidade." - Dom Quixote de la Mancha




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