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As Lições dos Colchoneros




Qual seria a postura dos dirigentes de vários clubes brasileiros nas seguintes condições?  
-  o  clube não ganha títulos importantes há vários anos
-  as receitas são menores que as despesas
-  as dívidas fiscais e trabalhistas aumentam
-  suas receitas são muito inferiores aos de seus principais concorrentes
-  seu principal artilheiro foi vendido no final da temporada

Se fosse no Brasil, muitos dirigentes iriam preparar seus torcedores sobre a provável baixa perspectiva de conquistas nas próximas temporadas, foco total no controle de gastos, talvez reclamar de um melhor fair play financeiro ou até culpar outros clubes por aliciar seus jogadores.

 Não foi esse o cenário planejado pelos Colchoneros para a temporada 2013/2014.

Numa briga em tese quase como Davi e Golias, os Colchoneros do Atlético de Madrid estão conseguindo nessa temporada uma performance impressionante em termos de resultados esportivos, que já estão se convertendo em melhores resultados financeiros.

De acordo com o Relatório Fooball Money de 2014 da consultoria Delloitte, os Colchoneros estão em vigésimo lugar em arrecadação, com uma receita total de 120 milhões de euros na temporada 2012/2013. O que me chamou a atenção no relatório é que, apenas 4 posições abaixo, aparece o Corinthians com um faturamento de 113 milhões de euros.

Os resultados em campo comparados com os recursos disponíveis demostram quanto no Brasil a competência na gestão ainda está muito aquém em termos de performance e maximização dos recursos. Enquanto o Corinthians, com o maior faturamento da América do Sul, teve resultados em campo muito abaixo do esperado em comparação aos recursos disponíveis, o Atlético de Madrid, com recursos 3 vezes inferiores aos 5 principais clubes do mundo:  Real Madrid, Barcelona, Bayer de Munique, Manchester United e Paris Saint-Germain, está disputando o título Espanhol e está na final da Champions League, o  maior título e a maior premiação de clubes do mundo.

Alguns detalhes sobre as principais receitas do Atlético de Madrid no último ano:

- Distribuição das Receitas: 44% (TV), 33% (marketing/comercial), 23% (Matchday)
- Maior incremento nas receitas foi com marketing e comercial com o novo contrato de fornecimento da Nike e o patrocínio do departamento de turismo da República do Azerbaijão.
- Receitas com TV e Matchday permaneceram praticamente os mesmos valores
- As suas receitas nunca variaram mais do que 15% para cima ou para baixo nos últimos 5 anos
- Estão construindo um novo estádio para 70 mil torcedores que ficará pronto em 2016/2017

Os resultados em campo nos últimos 15 anos são:

- 1999/2000 : rebaixado para a Segunda Divisão
- 2001/2002 - Campeão da Segunda Divisão
- 02 Ligas Europa - 2009/2010 e 2011/2012
- 02 Supercopa da UEFA - 2010/2011 e 2012/2013
- 01 Copa do Rei - 2012/2013

Com os dados acima, parece que tudo está sendo feito de forma organizada, mas os fatos abaixo são sinais de que os resultados desta temporada possam ser apenas um ponto fora da curva:

- Dívidas em espiral, propriedades de terceiros e falta de responsabilidade financeira
- Gastos excessivos que levaram o ex presidente Jesus Gil para a cadeia
- 46 milhões  de euros em  impostos devidos após seu rebaixamento
-  Gastos acima das receitas, mesmo após acordo com credores e governo
- Vários jogadores sem receber salários
- Parceria com a empresa Doyen Sports na compra e pagamento de salários de jogadores
- 52 milhões de euros em salários em atrasos com funcionários em 2011
- Déficit de 517 milhões de euros  em 2011


A crise financeira na Espanha fez com que o clube fechasse um acordo com as autoridades governamentais, renegociando suas dívidas ao custo de 4.5% de juros anuais. Devido à algumas das atitudes acima, o prêmio pelo título da Liga Europa foi retido temporariamente pela UEFA em 2012, e continuam sob vigilância da UEFA correndo risco de serem punidos pelo Fair Play Financeiro.

Com todo este cenário, tudo leva a crer que, como o Borussia Dortmund no ano passado, a probabilidade dos colchoneros voltarem para o papel de coadjuvantes é grande na próxima temporada. Tudo vai depender do assédio aos principais jogadores e treinadores e das medidas a serem tomadas pela gestão ao final desta temporada para checar se o cenário atual será sustentável ou não.

O mais importante neste momento é comparar os cenários atuais que vivem clubes com menor poder financeiro na Europa e os clubes brasileiros, muitos deles em situações similares às do Atlético de Madrid.

A força mental e o pensamento de que é possível enfrentar dentro das quatro linhas os clubes europeus de maior potencial financeiro,  fez com Diego Simeone e seu grupo de jogadores chegassem em uma situação inimaginável no início do ano. Conseguiram uma vantagem competitiva baseada em seus recursos que nenhum outro clube europeu atingiu recentemente.

Tenho ouvido muitos lamentos de gestores de clubes brasileiros e também lendo notícias na mídia esportiva. As desculpas vão desde o regulamento do campeonato e dos árbitros, passando pelos altos salários dos jogadores e a falta de patrocínio por causa da Copa, chegando até a culpar outros clubes por suas falhas. Isto só revela quanto os gestores do futebol brasileiro estão cada vez mais contribuindo para diminuir o valor do produto futebol brasileiro.

Que todos assumam suas responsabilidades e busquem fazer diferente e que as lições do Atlético de Madrid possam servir de exemplo para os clubes brasileiros, pois de desculpas o torcedor brasileiro está farto. O que todos querem são atitudes diferentes, que seja possível mudar o cenário atual, pois a ressaca da Copa do Mundo pode ser muito mais forte do que se imagina.










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