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Um Minuto de Silêncio



Sessenta segundos são capazes para se analisar o comportamento e valores de uma sociedade?

Provavelmente não, mas os indícios destes valores estarão presentes com seus códigos de conduta e consequências.

Na semana passada faleceu Bellini, o capitão da seleção brasileira na Copa de 1958 e que imortalizou o gesto de erguer a taça, que na época foi a solução por ele encontrada para que todos os repórteres pudessem fotografá-lo com a Jules Rimet em mãos.

Como esperado, os jogos do final de semana tiveram um minuto de silêncio em sua homenagem. Estava assistindo a partida Santos e Palmeiras, pela melancólica última rodada do paulistinha.  O árbitro fez o gesto simbólico para se iniciar o minuto de silêncio e os torcedores presentes simplesmente ignoraram a homenagem, mantendo os seus cânticos de guerra. Uma total falta de respeito.

No intervalo da partida, fiz o que milhões de brasileiros devem ter feito: mudei de canal para ver o mega clássico Real Madrid e Barcelona. Eis que o árbitro também fez o simbólico gesto de  um minuto de silêncio em homenagem ao ex-presidente espanhol Adolfo Suárez, que morreu neste domingo aos 81 anos. O que se viu foi um silêncio total, com as imagens do ex-presidente no telão, seguidos por um longo e forte aplauso coletivo no Santiago Bernabeu.

No final da partida na Vila Belmiro, torcedores do Palmeiras agrediram covardemente um blogueiro Palmeirense, que falava ao celular enquanto descia as escadas do estádio, provavelmente por diferenças de opiniões.

No final da partida no Santiago Bernabeu, o repórter da ESPN Brasil entrevistou um brasileiro que assistiu a partida, e podíamos ver na imagem ao fundo torcedores de Barcelona e Real Madrid passando,  sem nenhum problema. O comentário do torcedor foi o seguinte:

- Os torcedores espanhóis são civilizados.

Esses 4 fatos, nenhum deles com mais de 60 segundos, trazem indícios dos valores da sociedade brasileira e espanhola. 

O futebol é um grande evento com impacto no comportamento da sociedade, como outros esportes, de acordo com a sua popularidade.

Este é o reflexo de como a sociedade brasileira está reagindo em relação ao sentimento geral do descaso que o brasileiro se sente tratado pelos seus representantes e autoridades. Soma-se a isso a falta de ídolos e referências que o esporte sempre revelou e serviu de exemplos de valores para todos seus fãs, além de despertar ou aumentar o interesse de quem não era tão ligado no esporte em questão.

Precisamos refletir sobre o que estão fazendo com o futebol, um dos maiores patrimônios culturais e sociais do Brasil, e propor novas ideias e sugestões de mudanças, como as do Bom Senso F.C, que tive a honra de estar presente no evento da semana passada, fazendo perguntas e debatendo com os responsáveis do movimento.

Como reflexão final, peço um minuto de silêncio para avaliarmos o que nós como torcedores, pesquisadores, profissionais podemos fazer a curto, médio e longo prazo para que os que hoje comandam o futebol como senhores feudais sintam na pele a reação dos seus consumidores.

Proponho avaliarmos a possibilidade real de deixarmos os estádios vazios, fazendo com que todos percebam que, sem o torcedor que quer se divertir, ser bem tratado, sem correr riscos de morrer em um estádio de futebol, não será possível sustentar o negócio futebol apenas com os baderneiros e violentos, que estão imperando com sua força bruta no futebol brasileiro.

Você pode se questionar que minha proposta é absurda para um fanático, que considera que o significado de torcer é ir ao estádio ver seu time jogar. Você tem todo o direito de ir ao estádio, mas tenha consciência que, sem uma mudança de comportamento da nossa parte, muito provavelmente ainda teremos amigos, parentes e conhecidos passando por situações desagradáveis e inimagináveis.

Um minuto de silêncio, pode se transformar em 90 minutos de silêncio nas arquibancadas do Brasil. Esse sim pode ser nosso protesto, como o silêncio que os mais 85 mil espanhóis fizeram ontem em Madrid, de forma educada e respeitadora, valores esses que nenhuma sociedade do mundo pode prescindir se pretende se transformar em um país desenvolvido.




Se nos tratam como animais, assim será o comportamento humano naquele ambiente. Basta um minuto de reflexão para percebermos que podemos decidir não fazer parte deste ambiente, e além disso, sermos agentes de mudanças e melhorias.












Comentários

  1. Pois é Marcelo, concordo com você e acho que a discussão vai além do futebol, precisamos abrir os olhos antes que seja tarde, se já não é.

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  2. Acredito que a Educação Física Escolar tem contribuído muito, tanto para perpetuar este estado de baderna como também, quando discute seu papel social, mudar esta realidade para melhor.

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