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Cronicamente Inviável




Após os deploráveis fatos do final de 2013 e os fatos deste sábado no CT do SCCP, chego à conclusão que já há alguns meses tenho discutido com pessoas mais próximas:

O futebol brasileiro ainda não entrou no século XXI nem dentro e muito menos fora de campo.

Dentro campo, ano após ano,  vemos jogos de baixa qualidade, praticado por jogadores limitados, novatos ou em fim de carreira, orientados por treinadores que são valorizados pelos diretores e torcedores porque ficam gritando a beira do gramado e que no máximo treinam bola parada.

Enquanto isso na Europa vemos um futebol que a cada dia parece outro esporte, jogado em outra dinâmica, outra dimensão em comparação ao que vemos nos gramados do Brasil e na América do Sul. 

Fora de campo as liminares ressurgiram, o STJD voltou aos holofotes com seus artigos, incisos, parágrafos e a irritante empáfia dos que compõe o tribunal. A batalha campal de Joinville, o nebuloso caso Everton, dirigentes que buscam seus direitos muito mais preocupados em jogar para a torcida, pensando em si do que pelo bem do futebol.

O Brasil está nos anos 80 em termos de estrutura futebolística. Totalmente amparada no feudalismo das federações, sustentadas pelas migalhas concedidas pela CBF, mas que satisfazem o bando de hienas que se contentam com os restos, com a carne fétida e podre da presa abatida.

As tragédias de Heysel em 1985 e  de Hillsborough em 1989 fizeram com que a Inglaterra saltasse da barbárie para um patamar jamais pensado para a forma de se fazer futebol no mundo, sendo a meca do futebol mundial, com os maiores salários e faturamentos do mundo.

Os ingleses deram um basta no que estava acontecendo para reformular as estruturas corroídas que sustentaram um futebol que não seria mais viável para as próximas décadas.

No Brasil, como parte que parece enraizada no nossa cultura,  parece que colocar o sofá na sala já é o suficiente para acharmos que tudo vai se resolver.

Se na anedota do sofá, ao invés de punir a esposa, o marido resolve vender o sofá em que ele flagrou sua esposa com seu amante, no Brasil, todos acham que é só colocar o sofá na sala para tudo ficar resolvido.

Não basta ter novas arenas padrão FIFA, se os torneios forem desinteressantes e moribundos como os Estaduais, ou muito mal trabalhados como produto como o atual Campeonato Brasileiro.

Não basta contratar  CEO´s, CFO´s, CMO´s ou qualquer outro executivo sem dar tempo, estrutura, autonomia, metas de curto, médio e longo prazo e manter o poder dos diretores dos estatutários como acima dos profissionais.

Não basta  triplicar as cotas de TV se os clubes se atolarem em dívidas, afundando ainda mais na lama a já combalida saúde financeira, inflacionando o mercado e no final de cada temporada, após não atingir os resultados, fazer uma liquidação dos ativos para cobrir os rombos que podem durar anos.

Colocaram o sofá na sala do futebol brasileiro, mas as mazelas que matam a décadas o potencial imenso de geração de receitas continuam vivos, firmes e fortes.

Estamos condenados a nos resignar, achando que o futebol brasileiro, assim como o país, está condenado a ser cronicamente inviável?

O cineasta brasileiro Sérgio Bianchi traduziu muito bom este sentimento no filme Cronicamente Inviável de 2000.

Espero que você reflita sobre a cena abaixo, imaginando-se na fila para entrar nas Arenas padrão FIFA, ou debaixo do sol escaldante de verão nas arquibancadas de todos os estádios que não são padrão FIFA, para ir e voltar do estádio em transporte pública após a meia noite num jogo que começa após a novela, na fila para comprar ingressos caros para jogos que não valem nem 1/3 do que pagamos.

http://www.youtube.com/watch?v=SK9eNCRY734


Por que não  iniciarmos um protesto de forma diferente para mudar as coisas, se é que você concorda que tem que mudar?

Há muitas formas de mostrar nossa fidelidade ao nosso time, mas compactuar com o que está acontecendo no futebol brasileiro e aceitar as coisas como estão e mesmo assim torrar os miolos num domingo de verão senegalês apenas pelo amor ao seu clube é uma questão de escolha.


Eu acredito num futebol melhor para todos, compactuo com todas as premissas do Bom Senso F.C. , como no inteligente protesto dos jogadores do Racing Santander no jogo da Copa do Rei deste meio de semana ou na  ação dos torcedores de Genoa, que vão boicotar o clássico local entre Sampdória e Genoa devido ao horário da partida.

Será que um dia iremos ver no Brasil uma carta escrito pelos torcedores rivais um comunicado como o abaixo?

O debate está lançado.

Jogar o derby às 12h30 é uma decisão perversa, que merece uma resposta decidida e determinada. O futebol é, cada vez mais, um capacho da televisão. O esporte passa a segundo plano sob a batuta de bajuladores e dementes condutores de opinião. Os torcedores representam apenas carteiras que devem ser esvaziadas, ludibriados, com a devida permissão da Lega Calcio. Convidamos os torcedores do Genoa a esvaziar o Luigi Ferraris, concentrando-se abaixo da Gradinata Nord para seguir as iniciativas que indicaremos. Não vamos omitir nenhum protesto; quem decidiu o horário do derby merece uma resposta. A RESPOSTA VIRÁ, E NÃO VAI AGRADAR. Nossos alvos são os responsáveis por essa nojeira: as TVs pagas, os jornalistas que comem futebol e cospem no torcedor, e a Lega Calcio. Quem quiser entrar no Ferraris vai encontrar um estádio nu: sem torcida, sem cachecóis, sem bandeiras e sem coreografias. Nossa coreografia vai ser vista na rua. Estamos dispostos a rifar nossa pele. Preparem-se para defender as de vocês. NÃO AO FUTEBOL MODERNO. TODOS FORA DO ESTÁDIO, DO PRIMEIRO AO ÚLTIMO HOMEM.

Uma gota. Não a única, mas aquela que faz o vaso transbordar. O derby às 12h30 é uma ofensa. Uma ofensa, antes de tudo, aos torcedores genoveses, que encaram essa partida com a espera e a tradição de uma final. Relegá-la ao horário reservado à partida mais desinteressante do dia é uma agressão que não pode ser aceita. É uma ofensa aos dois clubes, amarrados de pés e mãos ao dinheiro das televisões, que os mantêm vivos; a ponto de não dizerem uma palavra contra essa decisão embaraçosa. O derby de Genoa é uma partida historicamente desprovida de técnica. Os verdadeiros valores do derby são outros. Uma atmosfera igual a poucas no mundo. Uma rivalidade acirrada, insuperável, duríssima. Um cenário quente nas arquibancadas, que supera os canônicos 90 minutos de jogo. É isso que as televisões vendem. Mais do que a partida, vendem nós todos. Não estamos em Milão, onde os campeões se destacam. Aqui, campeãs são as 30 mil pessoas, genovesas, que saem de casa e lotam o Marassi. Por isso, não aceitamos esse ultraje. Reivindicamos os papéis de protagonistas do show. Quanto vale esse show sem nós, os torcedores? Às 14h15, vocês nos dirão. Porque nós não vamos entrar. Vamos deixar que vocês transmitam o “seu derby”. E que a nossa ausência obrigue vocês todos a refletir, de uma vez por todas, sobre o valor dos torcedores. Estaremos em defesa da nossa gente. Antes, durante e depois.

Grupos Ultras da Gradinata Nord




 







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