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O Comercial



Gilson e Pepe eram cozinheiros que vieram do interior para ganhar a vida na cidade grande. Ambos com sonhos de dias melhores para a família, encontrar a mulher amada e dar para seus futuros filhos o que seus pais não puderam dar devido às dificuldades da vida.

Eles não se conheciam e, por ironia do destino, conseguiram um trabalho como auxiliar de cozinha em lanchonetes vizinhas no centro de São Paulo.

O tempo foi passando e ambos conseguiram se transformar nos cozinheiros chefes das suas respectivas lanchonetes. Era uma época mais simples, em que não havia muita diferenciação e a camaradagem e o hábito atraíam públicos semelhantes para as duas lanchonetes.

O prato principal de cada santo dia era: salada, arroz, feijão, bife e fritas, o famoso Comercial.

Tanto Gilson como Pepe eram elogiados, pois faziam muito bem o arroz com feijão de cada dia. Seus respectivos chefes e a clientela da região não tinham porque reclamar.

Com o passar do tempo a concorrência exigia diferenciação e novos ingredientes começaram a chegar nas cozinhas. Como os patrões não eram do ramo, a responsabilidade da criação ficava para Gilson e Pepe.

Os novos ingredientes foram chegando e os primeiros foram farinha e ovos.

Gilson, como fazia um excelente comercial com arroz com feijão, não teve dúvidas e criou o bife frito com farinha com ovo frito. Uma inovação para quem sempre era elogiado pelo trivial que fazia muito bem.

Pepe, ao receber os mesmos ingredientes, não teve dúvidas em consultar o livro de receitas para fazer um macarrão com ovos, farinha e sal.

No dia seguinte, enquanto Gilson ofertava comercial com a opção com bife frito e ovo, Pepe ofertava macarronada. Automaticamente os clientes foram experimentar a novidade e gostaram do que viram, aumentando a frequência na lanchonete de Pepe.

Gilson ficou com alguma dúvida, já que ele fazia o arroz com feijão muito elogiado pelo chefe. Achava que era um modismo, e que em breve os clientes voltariam.

Mais umas semanas se passaram e ambos receberam creme de leite para produzir novos pratos.

Gilson não teve dúvidas e inovou criando a sobremesa inclusa ao comercial.

- Isso vai ser uma grande inovação. Os clientes vão adorar comer o comercial e como cortesia terão um pudim como sobremesa - pensou Gilson.

Pepe, ao receber o mesmo ingrediente, novamente pesquisou por novidades e fez um novo prato, o strogonoff de carne com arroz e fritas.

Os clientes perceberam mais uma vez a novidade e aprovaram a variação de cardápio da cozinha de Pepe.

Gilson lamentava, pois seu comercial era o melhor, não entendia porque os clientes diminuíram enquanto o dono da lanchonete de Pepe vibravam com o aumento de renda.

A diferença de público era gritante, e Gilson começou a copiar os pratos de Pepe, mas o sabor não era o mesmo. Não tinha sua assinatura como o velho e bom comercial de cada dia.

O tempo passou e nos dias de hoje Gilson trabalha na mesma lanchonete no centro velho de São Paulo, cozinhando seu bom e velho comercial de cada dia e sempre lamentando com seus antigos e poucos clientes sobre o que acontecera há duas décadas.Ele não entendia como o o melhor comercial do centro de São Paulo fora deixado de lado pelos ingratos clientes.

Pepe abriu seu próprio restaurante, sempre buscando inovar com ingredientes simples, mas quando bem trabalhados podem gerar pratos extremamente saborosos. O seu segredo ele comentou da mesma forma simples de quando chegou em São Paulo:

- Não é necessário ingredientes caros para se fazer um bom prato, mas sim tirar o melhor de cada ingrediente, buscando a melhor mistura, fazendo com que eles rendam acima do que podem render.

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Qualquer semelhança com um treinador de um time grande de São Paulo com este causo não é mera coincidência.

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