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Invertendo a Pirâmide do Futebol Brasileiro

 
 


Este post não será sobre a evolução tática do futebol, como foi maravilhosamente escrito pelo jornalista Jonathan Wilson, na sua obra prima Inverting the Pyramid.

Apenas me inspirei no título do livro para tentar ilustrar e opinar sobre a polêmica e controversa reação do presidente da CBF e da atual comissão técnica sobre a decisão de Diego Costa ao preferir jogar pela Seleção Espanhola.

A reação da cúpula da CBF faz parte de um comportamento social enraizado na cultura brasileira desde a colonização do país e que reflete na pirâmide social brasileira.

Como estamos falando de futebol, vamos comparar os países com as ligas mais importantes do futebol mundial com o Brasil em termos do ranking mundial da desigualdade social:

1) Alemanha - Os 10% mais ricos ganham 6.9 vezes mais do que os 10% mais pobres.

2) Espanha - Os 10% mais ricos ganham 10.3 vezes mais do que os 10% mais pobres.

3) Itália -  Os 10% mais ricos ganham 11.6 vezes mais do que os 10% mais pobres.

4) Reino Unido - Os 10% mais ricos ganham 13.6 vezes mais do que os 10% mais pobres.


Brasil os 10% mais ricos ganham 40.6 vezes mais do que os 10% mais pobres.

Em média podemos dizer que a riqueza produzida no Brasil está 4 vezes mais concentrada nas mão dos 10% mais ricos em comparação aos 4 países com as ligas de futebol mais ricas do mundo.

Entrando agora no segmento futebol no Brasil, a situação é mais crítica pois, conforme o relatório Faturamento e Dívida das Federações de Futebol da Pluri Consultoria de 19/02/2013, a CBF é responsável por 80% de todo o faturamento com R$ 313 milhões/ano.  O segundo lugar pertence à Federação Paulista de Futebol com 6.6% do faturamento ( R$ 25.7 milhões).

Todos sabemos que a CBF tem foco total nas seleções, principalmente na Seleção Principal, tratando os clubes de futebol como apêndice, mesmo tendo consciência que são os clubes que desenvolvem os talentos para a CBF apenas lucrar com suas turnês mundiais.

 A Federação Sergipana arrecadou R$ 1.2 milhões, 0,3% do total de faturamento em 2011. De acordo com o site da Federação Sergipana atualmente 10 times disputam a Série A com jogos de Janeiro a Maio. A Série B é disputada por apenas 4 times com jogos de Setembro a Novembro.

Foi na cidade de Lagarto, interior de Sergipe, que Diego Costa nasceu em 7 de Outubro de 1988. Imagine as chances que ele teria de conseguir ingressar num dos 14 clubes que jogam profissionalmente as séries A e B do Estado, jogando no máximo 4 meses do ano caso disputasse o torneio por um time da Série A.

Diego Costa nunca jogou profissionalmente no Brasil e aos 16 anos começou sua aventura no Braga de Portugal. Depois jogou no Penafiel de Portugal e Valladolid da Espanha até se firmar no Atlético de Madrid à partir de 2010.

Porque Diego Costa, nascido no interior de Sergipe, se transformou na grande polêmica nacional e internacional da semana?

Porque ele teve a chance de trabalhar profissionalmente em países onde todos os clubes jogam durante todo o ano em várias divisões, e não se limitam a ínfimos 4 meses anuais de calendário, rezando por migalhas caso sejam agraciados em jogar com um time de Série A na primeira fase da Copa do Brasil e serem na maioria das vezes humilhados com goleadas.

Diego Costa aos 20 anos por sorte poderia jogar pelo América ou Itabaiana, que disputaram a Copa do Brasil de 2008 pelo estado de Sergipe. O América foi eliminado pelo Fortaleza e o Itabaiana pelo Vasco da Gama ambos na primeira rodada.

Teria Diego Costa outra chance na vida de ser descoberto?

Estaria Diego Costa em condições de se sustentar apenas com 4 meses de salário?

Já passou da hora de se inverter a pirâmide do Futebol Brasileiro, com os mais de 700 clubes jogando 9 meses do ano em torneios classificatórios até chegarem na Copas Regionais e posteriormente subirem para a Série C do Brasileiro.





A CBF detém 80% do faturamento das federações, enquanto 20% é desproporcionalmente dividido entre todas as federações. 90% das arrecadações dos clubes está concentrada nos times da Série A do Brasileiro.

Enquanto esta concentração de riqueza e recursos não sofrer alterações drásticas, Diegos Costas da vida irão preferir defender seleções de outros países, Marins, Del Neros, Scolaris vão manter sua visão coronelista e os torcedores cada vez mais preferindo ficar sábado e domingo vendo grandes jogos pela TV do que saírem de suas casas para consumir um produto de qualidade duvidosa comercializados como de alto nível devido às novas embalagens das Arenas.

O futebol brasileiro precisa se reinventar de fora dos gramados para dentro, pois como na economia mundial, continuaremos a vender commodities enquanto o primeiro mundo aprimora e transforma e especialidade um produto genuinamente brasileiro.






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