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O cavalo do Vanderlei



A cada segunda-feira que leio os posts da Elaine Brum, mais me encanta sua narrativa, suas histórias e principalmente, sua forma de ver o mundo.  Do talento de Elaine eu só posso venerar, mas da sua forma de pensar, me sinto muito próximo dela.
Na última terça-feira, após ver o Cartão Verde na TV Cultura, o grande Antônio Abujamra anunciou que a sua convidada naquela noite no programa Provocações seria nada mais nada menos que Elaine Brum.
Minha bateria começa a dar sinais que está quase fraca por volta das 22h30, mas insistentemente, mesmo com cochilos no sofá, eu resisto erroneamente contra a minha natureza, e ainda fico mais uma hora acordado, mais como um zumbi do que realmente desperto.
Ao anunciar sua convidada naquela noite, automaticamente me despertei, sentei no sofá e fiquei esperando o que viria dos pensamentos, opiniões e pontos de vista de Elaine, para checar se o que ela escreve realmente é como ela pensa. Não me decepcionei, pois, a cada opinião dela eu ficava convencido de que penso muito parecido com ela, mas infelizmente ainda não tenho o seu talento para se expressar de forma tão dura, mas ao mesmo tempo, tão bela nos seus textos.
Como tudo em nossas vidas, temos várias formas de interpretar e assimilar os fatos, e quase sempre nos confundimos, esquecendo que não somos programados em planilha excel, mas sim de carne e osso, e que isso faz muita diferença.
No final do programa, Abujamra pediu a Elaine uma palavra final, e ela descreveu, com muita similaridade, ao texto que abaixo retirei do seu post escrito há quase 4 anos:

Elaine Brum
Vanderlei era o seu nome. Ele era aquele tipo de gente que costumamos reduzir à personagem folclórico.

Muito pobre e um tanto estropiado, todo ano ele aparecia na Expointer, a maior feira agropecuária do Rio Grande do Sul, com um cabo de vassoura. Dizia que o cabo de vassoura era seu cavalo de raça. Passava pela inspeção veterinária, cumpria os trâmites burocráticos. E lá ficava cavalgando pelos campos da exposição. Os “normais” da feira achavam muita graça, tanta que até alimentavam-no e deixavam que dormisse por ali. Vanderlei era o louquinho da Expointer.

Um dia, na busca de gente para contar histórias, emparelhei meu cavalo com o dele. Perguntei: “Vanderlei, você é louco?”. E começamos a conversar. A certa altura ele disse: “Você acha que eu não sei que meu cavalo é um cabo de vassoura? Mas pensa, raciocina (e batia a mão fechada na cabeça). Eu nunca vou ter um cavalo de verdade. Você não acha melhor eu acreditar que o cabo de vassoura é um cavalo?”. Só me restou o silêncio. Se ele era louco, eu era o quê?

E assim acabou o programa.
Fiquei a semana inteira refletindo sobre esse fato, e divagando sobre os ensinamentos que cada um de nós pode retirar desse simples diálogo, que pode mudar nossa forma de ver a vida em um minuto.
Na semana em que cinco companheiros de trabalho receberam a notícia que seus empregos estão com os dias contados devido mudanças de estratégia da empresa, e na mesma semana que o lendário Dark Side at the Moon do Pink Floyd completou 40 anos, sempre atual e maravilhando gerações, como não ficar incomodado com as palavras de Vanderlei, contadas por Elaine?
A lua tem dois lados, bem como o ser humano, que ao contrário da lua, tem vários lados.
Será que você pensa que está montado em um cavalo, mas na verdade não passa de um cavalo de vassoura?
Será que montar em um cavalo de vassoura pensando em ser um cavalo de verdade não deve ser mais divertido?
Para muitos, o mundo atual pode ser vivido através de uma planilha excel, onde a pessoa, somente deletando ou reduzindo números, chega ao resultado esperado, como fosse um grande jockey montando em seu alazão. Eles esquecem que a vida não é feita por números, resultados, lucro, mas sim de sentimentos e motivações. A vida vivida como um grande jockey, provavelmente vai dar muitos tombos nessas pessoas, pois esquecem que não se pode controlar o pensamento, anseios e desejos dos outros.
Prefiro viver como Vanderlei, enganando aqueles que pensam que eu estou montando em um cavalo, mas na verdade buscando através de um simples cabo de vassoura, temperos para minha vida.

Breath, breath in the air!!!




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