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Os Miseráveis



Hoje é a noite do Oscar, e pelos últimos 15 anos, eu tenho acompanhado as premiações para comparar as escolhas da Academia de Hollywood com o meu ponto de vista. Para isso procuro assistir à grande maioria dos filmes concorrentes e emitir minha humilde opinião.
Não vou utilizar esse espaço como crítico de cinema, mas o filme que mais me emocionou foi “Os Miseráveis”.  Um filme baseado em uma das grandes obras primas de  Victor Hugo,  grande escritor francês do século XIX.
Acompanhando o processo de reconstrução do Palmeiras, as notícias da semana no Brasil e no mundo, e o infeliz incidente de Oruro na última quarta feira, como o filme me deixou várias mensagens, podemos observar vários matizes da obra de Victor Hugo nos fatos da semana.
Vivendo na maior e mais rica na América Latina, São Paulo, com o décimo PIB mundial entre as cidades, eu me senti um miserável juntamente com milhões de paulistanos que se sentem impotentes ao ficarem presos nas avenidas da cidade após as chuvas dos últimos dias.
Será que não tem uma solução plausível para essa situação caótica que é previsível em todo verão?
A cada forte trovoada e relâmpagos, com o céu da cidade escurecido, transformando a cidade de São Paulo em um eclipse solar quase que diário, somente com muita oração e paciência para não se sentir miserável na metrópole.
Na quarta feira o show de horrores de Oruro na Bolívia mais uma vez demonstra quanto é miserável a mentalidade das autoridades políticas e esportivas da América do Sul, contagiando com os mesmos valores e pensamentos a mentalidade dos torcedores que vão aos estádios do e de terceiro mundo. Nesse fato miserável, o garoto Gavroche da obra de Victor Hugo teve o seu destino  interpretado tristemente por Kevin Espada.  

A vítima de Oruro deixa claro que em muitas áreas da América do Sul, vivemos em condições e mentalidade contemporânea da época de Victor Hugo do século XIX. Ao ver os torcedores corintianos presos em locais similares a masmorras, ao ver as reações exacerbadas dos favoráveis e contrários à punição dos envolvidos, só me resta o sentimento de pena de todos os miseráveis envolvidos naquela triste noite.
Provavelmente Jean Valjean e Javert, as personagens antagônicas da obra do mestre francês, foram incorporadas por todos os envolvidos no episódio. Parecia que os torcedores, de uma forma inconsciente, atraíram a tragédia para Oruro, no alto dos seus 3.700 metros de altitude. Como que simbolicamente, nas alturas da América do Sul, a miséria de mentalidade, valores e comportamentos dos sul americanos foi explicitada ao mundo, ao universo, da forma mais crua.
Os Miseráveis não se resumem a sofrimento e injustiça, mas também traz uma grande mensagem de esperança. Não é só com o lado triste de Javert, Jean Valjean, Fantine e Gavroche que se faz a obra e vida. As mesmas personagens também trazem sonhos, ideais e muita vontade de mudar o mundo e as suas condições. O grupo de revolucionários liderados por Marius Pontmercy e Enjolras faz com que o espírito de lutar por justiça e igualdade, mantendo o sonho de um mundo melhor, também podem contagiar multidões.
Como Palmeirense, brasileiro e morador da miserável América do Sul, acredito num mundo melhor. Tenho sonhos e projetos que espero poder transformar, com pequenas atitudes e comportamentos, a minha vida, a minha família, meu trabalho, meu clube de coração, o futebol brasileiro e sul americano, deixando menos miserável a vida de todos ao meu redor.
Que os sentimentos do epílogo desse grande filme/ musical ecoe em nossos corações como a batida dos tambores dos estádios e das culturas da América Latina, para que nos dias que virão, possamos deixar ao nosso redor um mundo menos miserável, no sentido mais amplo possível da palavra.



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