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E agora Giuseppe?



Giuseppe chegou a São Paulo no início do século XX.
Como milhares de italianos vindos do sul da bota, Giuseppe vislumbrou no novo continente a esperança de fazer uma vida melhor, mudar de vida e realizar seu sonho no Brasil pré- industrial.
Homem rude, forte e com coração cheio de sonhos, ele desembarcou na hospedaria do Brás, após atravessar o Atlântico no convés de um navio cargueiro, vendendo sua mão de obra em troca da passagem para uma nova vida.
O Brás já era uma das maiores concentrações da colônia italiana, e toda aquela vibrante região de São Paulo tinha um ar familiar da Itália, com napolitanos, calabreses, bareses, sicilianos que traziam consigo suas tradições e sua cultura.
Giuseppe trabalhava na zona cerealista do centro de São Paulo, carregando as carroças com todos os tipos de grão que chegavam de trem para os grandes armazéns, levando esses carregamentos até o Mercado Municipal.
São Paulo era uma cidade que ainda carecia de grandes empreendedores, e os italianos, juntamente com os portugueses, libaneses, espanhóis, japoneses e demais imigrantes, começaram a construir seus impérios.
Giuseppe também sonhava grande, e  já que  sonhar dá trabalho, por que sonhar pequeno não é?
Ao ver os primeiros êxitos dos seus companheiros de lavoro, Giuseppe também resolveu abrir um pequeno armazém na região da Pompeia, para ficar um pouco mais perto emocionalmente da mesma Pompeia que ficava a 22 km da sua Nápoles, e que foi engolida pelas lavas do Vesúvio em 79 d.C.
A São Paulo dos anos 30 e 40 já começava a despertar para a sua vocação de protagonista de um novo Brasil que ainda estava engatinhando em termos de industrialização e Giuseppe, literalmente, de grão em grão começava a prosperar economicamente e socialmente.
Através do jornal Fanfulla ele acompanhava as notícias da sua inseparável Itália, mas também procurava viver um pouco do seu saudoso país em São Paulo, indo assistir as óperas de Verdi e Puccini no Theatro São Pedro, mangiato la pasta nas tratorias do Bexiga e vibrava com o Palestra Itália que foi tricampeão em 1934.
Giuseppe começou a ficar rico, abriu mais 4 armazéns na região, já fazia parte de uma classe social emergente que estava ajudando a construir um novo Brasil. Desde criança ele tinha um sonho de comprar uma Ferrari, que para ele era o maior sinal de riqueza, poder e conquista.
Durante as décadas de 40 e 50 ele se casou com Maria Antonieta, uma belíssima ragazza de olhos azuis e cabelos castanhos claros, filha de um grande cliente dos seus armazéns. Com Maria Antonieta, nome de principessa, ele viveria seu grande amor. Nessa mesma época ele era o maior atacadista do estado de São Paulo e dava seus primeiros passos abrindo os primeiros supermercados da cidade.
Com a prosperidade do país, durante as décadas de 60 Giuseppe se transformou na maior rede de supermercados de São Paulo, era respeitado pelas autoridades, pela sociedade. Todos queriam trabalhar na grande rede de supermercados do Brasil.  Seus filhos Heitor e Waldemar, em homenagem aos craque do Palestra, já tinham por volta dos 25 anos e seriam os grandes herdeiros deste verdadeiro conglomerado, dando os primeiros passos na corporação.
Durante a década de 70 Giuseppe realizou seu  grande sonho e conseguiu comprar sua Ferrari. Uma belíssima máquina que ele tratava como seu terceiro filho. Ele a exibia para seu seleto grupo de amigos da sociedade paulistana como um troféu. Giuseppe não a venderia por nada neste mundo.
Eis que a partir do final da década de 70, com a crise do petróleo e o milagre brasileiro começando a dar sinais de fraqueza, a vitalidade e os negócios de Giuseppe começaram a cair e ele precisava de apoio e suporte para tocar toda a operação.
Nesse período, alguns dos seus funcionários de maior competência para cargos operacionais, assumiram  funções executivas, pois seus filhos ainda não estavam prontos e já demonstravam que o principal objetivo deles era gastar o dinheiro que com tanto suor foi conquistado por Giuseppe.
A inflação e a estagnação da economia foram duros golpes para os negócios de Giuseppe, e toda a prosperidade começou a tomar o caminho inverso por toda a década de 80, a chamada década perdida da economia Brasileira. Giuseppe teve que pedir dinheiro no banco para cobrir as operações, suas economias pessoais, seu luxo, as viagens, as conquistas viraram imagens vistas somente através do retrovisor da sua Ferrari.
Os comentários gerais eram de que a crise seria passageira, e que em breve os negócios voltariam a prosperar. Poucos deram conta que novos competidores, mais atualizados e agressivos, começavam a surgir, tomando muitos dos clientes que até os anos 70 tinham nos supermercados de Giuseppe sua maior fonte de serviços e produtos.
Giuseppe nunca cogitou vender sua Ferrari, mesmo com os pedidos de Maria Antonieta e seus filhos.
Com uma parceria de um banco italiano, durante os anos 90, os negócios da família voltaram a prosperar, mas quem realmente tocava as operações eram os italianos, com muito dinheiro, mas também com um inovador modelo de gestão. Os anos de ouro dos negócios pareciam ter voltado, a década de 90 trouxe novamente a pujança e o respeito dos negócios de Giuseppe, que recuperou sua aura de grande empreendedor.

A ganância, o egoísmo e falta de visão dos diretores da empresa de Giuseppe, bem como a falta de vocação de seus filhos para os negócios, que só se preocupavam em manter seus luxos, não foram percebidas por Giuseppe e quando os italianos resolveram romper a parceria no final da década de 90, Giuseppe foi à bancarrota.
Quando ele se deu por conta, toda a pujança dos anos 90 estava sobre bases muito frágeis, seus principais diretores não eram tão competentes e confiáveis quanto ele achava, pois quando tudo vai bem é muito fácil que pessoas com pouca competência e os espertos se aproveitem das situações e também os resultados mascaram ou adiam medidas mais rígidas para manter toda a operação sustentável.
Todo o império de Giuseppe se desmoronou como um castelo de areia. Ela ainda vivia no seu palacete, mas já muito deteriorado, seus filhos perderam tudo devido aos gastos descontrolados, seus supermercados foram fechando um a um para poder pagar todas as dívidas. O efeito dominó de desgraça estava destruindo o sonho de uma vida inteira, devido a vários erros de Giuseppe desde a segunda metade da década de 70.
Maria Antonieta já havia falecido após um ataque cardíaco fulminante durante a crise dos anos 80. Seus filhos não eram confiáveis e só queriam mais dinheiro para gastar. Seu único apego era sua Ferrari, que poderia ajudar a no mínimo manter uma vida minimamente decente durante o crepúsculo da sua vida.
Vender a Ferrari e conseguir dinheiro para se sustentar pelos próximos anos ou mantê-la com um sinal de status na sua garagem, mas que no final era uma despesa muito pesada para a já combalida saúde física e financeira?
E agora Giuseppe?





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