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Let There Be Rock






Este post não tinha como ter outro título devido à grande sensação de alegria e prazer que eu tive após rever, depois de 29 anos, o antológico documentário / show do AC/DC em Paris no ano de 1979 que tem o mesmo título.
Esse documentário se passa durante a grande turnê de lançamento de um dos álbuns mais célebres da banda, Highway to Hell, de 1979. Angus Young e o lendário Bon Scott estão no auge e o mundo do rock and roll estava reverenciando a chegada de uma das divindades do rock and roll ao sagrado altar da eternidade musical, ao lado da  Trindade Suprema: Deep Purple, Led Zeppellin e Black Sabbath.


O DVD é, de uma certa forma, bem tosco se compararmos à realidade atual de produção e recursos tecnológicos mas, a mensagem principal está lá, a banda tocando ao vivo, com toda a energia que se pode obter de 5 caras que estão 200% inteiros fazendo o que sabem e o que gostam, entrando em conexão completa com  a plateia, e também com quem assiste pela primeira vez esta maravilha. Angus está esplêndido, com sua cara e visual de garoto malvado da escola, Bon Scott esbanja talento e carisma, e a cozinha formada por Malcon Young, Cliff Richard e Phill Rudd não deixava por menos, tocando com intensidade e força bruta, como sempre soou as músicas desta magnífica banda.
Você pode estar perguntando por que estou tão empolgado com este show?

Sim, eu entendo a sua dúvida e vou tentar explicá-la à partir do próximo parágrafo.
O ano é 1983, este que vos escreve estava completando 14 anos de idade e, como todos que já passaram por esta fase, sabem muito bem o turbilhão de mudanças internas e externas que ocorrem nesta fase da vida.
Cerca de 1 ano antes fui apresentado ao Rock and Roll, e mergulhei num mundo de sonhos, viagens, meu universo se expandiu milhões de vezes ao sentir aquelas guitarras e seus solos e sons mais incríveis que eu já havia escutado, vocalistas que urravam seus sentimentos de uma forma ímpar, bateristas e baixistas que pareciam uma única pessoa tocando os dois instrumentos. Tenho certeza de que há 30 anos  fui iniciado em uma religião chamada Rock and Roll, com seus anjos, deuses, mártires, ícones que fazem parte da minha vida até hoje.
Quantas possibilidades surgiam, que tipo de estilo de vida era esta que eu podia me expressar diferentemente dos playboys de cabelo “axotão” (não me peçam  explicações deste nome), camisa pra dentro da calça, roupa toda arrumadinha que ouviam os enlatados americanos nas rádios e nas TVs?
Como era bom usar calça jeans surrada, camiseta preta, cabelo comprido e tênis. Para um adolescente poder ser diferente dos diferentes, sendo diferente, era muito bom. Eu não fazia parte da vida de gado que 99% dos adolescentes ainda pertencem até os dias de hoje. Eu era diferente, eu me sentia, de uma certa forma, abençoado com este dom que Deus me deu, que já foi entoado no hino ao Rock and Roll criado pelo Kiss , God Gave Rock and Roll to You.


Nestes primórdios da era digital nosso acesso ao que ocorria de novo no mundo da música era através dos discos, que eram lançados sempre atrasados no Brasil. Os demais discos eram caros e inacessíveis aos brasileiros de classe média baixa que viviam naquela época de pagamentos ao FMI, calote da dívida e dólar nas alturas. Para quem já trabalhava ou tinha uma família com mais condições, a fonte para comprar estes discos era a Woodstock, que ficava em uma galeria na Rua José Bonifácio, no centro de São Paulo.
Os raros vídeo clipes passavam nos programas de sábado à tarde / noite, Som Pop ( TV Cultura ), Realce ( Gazeta, aquele que tinha o argentino Mr. Sam e Capivara, o avô do Louro José).
Ouvir rock na rádio era quase impossível. Existiam alguns programas como Sessão Maldita, com Kid Vinil e Leopoldo Rei na Rádio Excelsior, da meia noite às 2 da manhã de sábado para domingo e o Som Pop, na Rádio Cultura AM todos os dias às 17:30h.
Comparado com os dias de hoje, consumir rock and roll nas suas várias formas, era como  ter acesso às informações do mundo para quem mora da China, Irã ou Coréia do Norte. A diferença é que nesses países existe restrição, para nós no Brasil naquela época estávamos isolados do mundo, como se tivéssemos em uma ilha rodeados por índios tribais e seus batuques e cercados por canhões de tanques de guerra imaginários, ainda respirados pelos resquícios finais da ditadura militar.
Em 1983, no contexto acima, uma pequena faísca, mas suficiente para mostrar que a vida podia ser diferente e melhor, surgiu como um oásis para os roqueiros da época. O filme Let There Be Rock, do AC/DC, seria lançado em circuito comercial. Imaginem o que era receber esta notícia? Ninguém ainda tinha vídeo cassete, e muito menos shows que pudéssemos assistir dos nossos Deuses.



Pra vocês terem uma ideia, quando vimos a primeiro foto do Iron Maiden, ninguém sabia quem era quem na banda. Somente após um vídeo clip do The Number Of the Beast no Som Pop, nos tirou a dúvida, mas isto é uma outra história.
A notícia rapidamente se espalhou e chegou até a humilde e pulsante vila que morávamos e nos reuníamos no Tatuapé. Sim para nós, esta vila chamada Rua Lopes Moreira, era como Paris dos anos 20, Londres ou São Francisco dos anos 60, Florença do século XVI. Imaginem o que esse filme no cinema representava para um bando de adolescentes com seus hormônios a mil que tocavam seus violões Di Giorgio, suas guitarras Gianinni. Caso não tivéssemos um instrumento, entoávamos nossos hinos em toca fitas ou discos nas garagens das nossas casas.


Eu, Gonha, Podrão, João e E.T.

Numa tarde de domingo, eu , Gonha, Podrão, João e E.T. pegamos o Metrô no ponto final, que na época era no Tatuapé, vestidos com nossos trajes de gala, saímos para a São João para reverenciar nossos deuses. Pela primeira vez teríamos a possibilidade de assistir mais do que um vídeo clip deles.  O destino era o Cine Espacial, um cinema surreal que ficava na Av. São João. O cinema era redondo e passava filme em 3T, três telas.  Não poderia ter local melhor para nos levar para outra dimensão e assistir nossos deuses ao vivo. Foram 97 minutos de êxtase, todos assistimos ao show, oops, filme, em pé, ninguém estava sentado, entoávamos cada refrão, que era o que sabíamos cantar na época, como mantras sagrados. Atingimos o Nirvana no final, com Highway to Hell, Whole Lotta Rosie e Let There Be Rock.
Imaginem esses 5 garotos da Zona Leste, saindo do centro em êxtase, cantando cada som na volta, empolgados em ver Angus Young e Bon Scott arrebentando. Foi espetacular, sensacional. Até aquele momento, somente tinha tido este tipo de experiência quando via meu Palmeiras jogar no Palestra Itália.
Depois de 29 anos, na noite de ontem eu tive a oportunidade de rever este filme no conforto da minha casa. A cada nota de cada música que tocava até agora que estou escrevendo este post as sensações daquela tarde de domingo voltaram como um vulcão em minha mente e meu coração e fui fazendo um flash back daquele momento até os dias de hoje. Também foi possível fazer um paralelo com a história desta banda maravilhosa.
Fico muito contente de sentir que aquele adolescente cheio de High Voltage, ainda vive dentro de mim. Minha essência ainda permanece comigo até agora e por isso posso dizer que estou muito feliz nos dias de hoje, pois após quase 30 anos, meus princípios, valores e gostos permaneceram intactos e mais apurados. Até hoje escuto rock and roll, sou apaixonado pelo Palmeiras, casei com a mulher dos meus sonhos, cheguei onde estou com meu suor e trabalho, perdi meu velho Pai e outros parentes próximos, perdi e um grande amigo querido mas, It´s a long way to the top if you wanna Rock and Roll, como diz uma das grandes músicas do AC/DC.
O que ficou deste momento é que temos uma essência que não podemos deixar de vivê-la com intensidade. Não podemos sufocar nossos sentimentos, gostos e desejos. Desta foram podemos viver de uma forma mais feliz e autêntica. Na vida, como no rock and roll, existe uma grande conexão entre a essência de cada um de nós com a consciência divina que nos conecta através da música, da arte, do belo, do divino.
Quando deixamos estes sentimentos fluírem, somos nós mesmos, felizes e livres de limitações.
Let there be sound, and there was sound
Let there be light, and there was light
Let there be drums, there was drums
Let there be guitar, there was guitar,
Let there be rock…..














Comentários

  1. Coincidência é quando o destino perdeu a agenda! Estava eu ontem caminhando pelas ruas do Tatuapé, justamente todas essas lembranças me vieram à mente.

    Acompanhei tudo isso e devo a vc, Bense, minha entrada no cenário do rock'n'roll!

    Se estivesse no filme de PLANETAS DOS MACACOS, A ORIGEM, eu o reverenciaria inclinando minha cabeça ´ra baixo e erguendo meu brço num movimento simultaneamente anatgônico.

    Obrigado, mais uma vez, meu irmão, por mais essa lição.

    Beijos.
    Adriano Paciello

    P.S.: Quase fui execrado pelo autor deste blog, que me flagrou fazendo o MOONWALKER do Michael Jackson...

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  2. Experiências como essa... é que nos fazem muito especiais! Viver a vida!

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