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Guerra e Paz




Hoje tive o imenso prazer de degustar os dois imensos painéis de Cândido Portinari, Guerra e Paz, que estão expostos no Memorial da América Latina. Pela primeira vez tive contato mais aprofundado com um artista brasileiro e, também pela primeira vez, tive uma reflexão interna sobre o porquê do meu preconceito que ainda tenho sobre a arte brasileira.
Talvez a principal razão seja minha ignorância sobre a história da arte brasileira. A não ser o que aparece de uma forma mais popular através dos meios de comunicação, nunca tive um contato tão próximo que pudesse despertar maior interesse e reconhecimento.
Hoje eu vi o Brasil da primeira metade do século XX literalmente passando na minha frente através do espaço multimídia com todo o acervo de Portinari digitalizado. Desta vez não precisava ler a legenda para entender o título do quadro. Eu sentia os quadros como algo mais real, mais palpável. A trilha sonora de Norberto Macedo dava ainda mais brilho e sutileza na apreciação dos quadros, transformando minhas sensações em algo que estava tão distante em algo que parecia que estava praticamente dentro de mim.
Durante minha fase da adolescência eu fui apresentado à cultura em todos os seus matizes através da arte estrangeira com seus filmes, escritores, compositores, pintores e escultores. Desde então a arte estrangeira se transformou em minha referência cultural e, por rebeldia, falta de informação, falta de exposição e contato direto, sempre considerei a arte brasileira como de segunda classe.
A única expressão cultural brasileira que eu incorporei na minha vida foi através do futebol, principalmente pelo meu amado Palmeiras, clube de origem italiana por sinal.
Depois do dia de hoje parece que estou me religando, reconectando, redescobrindo a arte brasileira.
Ver a obra de Portinari passando na minha frente ao som de Norberto Macedo e com poema de Carlos Drummond de Andrade foi a entrada da sala de estar e fez com que meus sentidos fossem aguçados para o banquete principal.
Os dois painéis em tamanho original

Degustar os dois gigantes painéis de Guerra e Paz com a composição de Fernando Brant e narração de Milton Nascimento foi o banquete principal. A trilha sonora parecia com que a as notas musicais estavam em perfeita sintonia com cada pincelada do artista, com cada letra do poema, com cada sílaba do narrador. Estava em um banquete especial, quase que antropofágico entre eu o ambiente. Degustar cada pincelada, palavra e som através dos sentidos fora como se fosse um banquete digno de Babette na sua simples e sofisticada Festa.
Como sobremesa, tivemos os pequenos frutos de cada detalhe dos quadros que se transformariam em sua obra final, perfeita em todos os sentidos, transcendendo cada detalhe em um todo indivisível, nos dando a sensação que o artista somente exercitava cada detalhe de um grande quadro que já estava praticamente confeccionado em algum lugar da sua imensa imaginação.
Banquetes como este nem são necessários finalizar com digestivos, pois a alma absorve tudo com tanta voracidade que nos transformamos em um só corpo praticamente no mesmo instante.
Guerra
Paz

Yin e Yang, Dentro e Fora, Exterior e Interior, Nacional e Internacional, Feliz e Triste, Tudo e Nada, Claro e Escuro, Simples e Sofisticado, Humildade e Soberba.





As palavras acima nos despertam sensações tão antagônicas e ao mesmo tempo tão complementares que nem sabemos onde acaba uma e começa a outra. Talvez seja porque nossa consciência não perceba que a dualidade só existe dentro da nossa limitada interpretação da existência humana.
Obrigado Candinho que com sua arte, pintou uma bandeira branca em meu coração que estava em guerra, iniciando um tratado de paz entre este humilde ser humano com a arte brasileira. Talvez não seja tão à toa que esta belíssima obra de arte tenha como sede a ONU.

Detalhes do Painel Paz

Comentários

  1. Muito bom o texto, ele nos transporta a uma reflexão sobre se realmente estamos livres de nosso complexo de viras latas, como assim nos descreveu o grande teatrolo brasileiro Nelson Rodrigues.

    Obrigado pela indicação do texto.

    Nivan Gomes
    Coordenador de Relacionamentos
    NEW - BRAZILIAN FOOTBALL TECHNIQUES INSTITUTE
    A nova escola brasileira de futebol
    novaescolabrasileiradefutebol@yahoo.com.br
    São Caetano do Sul/SP - Brazil

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  2. Marcelo... que alegria ler este texto! Está tão bom e verdadeiro! Parabéns!

    ResponderExcluir

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