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Quando Podemos ser Deuses


Deus e Adão ( Michelangelo ) - Capela Sistina - Vaticano


Essa semana que passou não foi uma semana qualquer, especialmente para quem é apaixonado por futebol, independente do time que torce. Desde o apito final do jogo do Corinthians e Figueirense até esse sábado, há um sentimento no ar de que entramos num estado similar ao filme Matrix.

A velocidade de tudo o que ocorreu após o sagrado segundo gol do Vasco da Gama nos dá a sensação de que tudo está em câmera lenta para a grande parte dos torcedores.  Parece que as horas e os dias passam num ritmo diferente do ritmo da batida do coração de cada torcedor apaixonado. O sentimento que tenho é que estamos numa prolongada tecla pause que está sendo catalisada a cada dia da semana, esperando que o filme continue neste domingo às 17 horas para que ,por volta das 19 horas, ocorra uma enorme explosão de alegrias e tristezas.

A paixão que alimenta cada torcedor é semeada em dias e semanas como a que passou. Por mais indiferente que a pessoa seja, foi impossível, mesmo que por um instante, não sentir a vibração que está no ar. Que outro tipo de esporte, religião, partido político pode causar essa catarse popular como futebol?  Qual é a magia por trás dessa paixão?

Acredito que é esse mágico mistério que promove esse infinito mosaico de emoções que é o responsável por esta paixão. Simplesmente não tem explicação e, caso houvesse, perderia todo o sentido viver as “irracionalidades” que sentimos nestes momentos. Se soubéssemos o porquê da cada sinapse que ocorre dentro do nosso cérebro, as reações em cadeia que ocorrem nas amígdalas cerebrais, cerebelo, etc. não iríamos mais sentir as mesmas emoções, comportamentos “irracionais” e loucuras que fazemos em momentos como esses. A fábula da centopeia que quando foi perguntada como ela conseguia mover de forma tão sincronizada suas inúmeras pernas, ao parar para racionalizar, não conseguiu efetuar mais nenhum movimento, encaixa-se perfeitamente para a explicação acima.

O que passa na cabeça de você torcedor corintiano, Palmeirense, vascaíno, flamenguista, cruzeirense, atleticano, coxa branca e atleticano rubro negro?

Durante a semana ouvi inúmeros comentários, reações e demonstrações de paixão exacerbada por parte dos fanáticos torcedores dos seus respectivos times sobre o que sentiram durante os jogos do domingo passado e o que imaginam que irão sentir de acordo com os resultados deste domingo.

O Grande Masturbador - Salvador Dalí
Uma das grandes obras de Dali é O Grande Masturbador, e eu acredito que é desta forma que o torcedor deve estar sentindo neste momento. Tudo está na sua imaginação, criando suas fantasias, sonhos e desejos reprimidos, aguardando o momento do grande orgasmo do grito de campeão ou do alívio de não ser rebaixado.




O que passa na cabeça do corintiano caso não seja campeão amanhã?

Qual o sentimento do Palmeirense se conseguir ganhar do grande rival e evitar que seja campeão?

Quais serão as angústias do vascaíno sabendo que mesmo com todos seus esforços, vai precisar da derrota de outro time para ser campeão?

Qual será o tamanho da alegria flamenguista caso o Vasco seja vice de novo?

Será que dá para imaginar a angústia do torcedor cruzeirense e do furacão caso sejam rebaixados pelos seus maiores rivais?

Dá para imaginar qual será a reação do torcedor do galo se mandar o seu grande rival para a segundona?

Qual será a emoção do torcedor do coxa na dupla missão de voltar à Libertadores depois de subir da série B e ao mesmo tempo rebaixar seu arqui rival?

Como tudo pode acontecer, imagine se acontecer tudo ao contrário do que todos estão imaginando que possa acontecer amanhã?

Gostaria de deixar uma mensagem ao Sr. Tite, técnico do Corinthians. Senhor Tite, o que paga o seu alto salário é a rivalidade e a competição que os times da mesma cidade travam. Sem isso o senhor não estaria ganhando o que ganha e não estaria tendo o destaque que está. Recomendo que o senhor leia o livro A Dança dos Deuses (Futebol, Sociedade e Cultura) de Hilário Franco Junior.  No capítulo Solidariedade e Rivalidade, o que o escritor conclui é que o futebol é mais forte em cidades aonde existem rivalidades entre times da mesma cidade. Por favor, não busque desculpas pequenas em sentimentos tão fortes quanto as rivalidades regionais.

O mistério da paixão do futebol se alimenta em dias como os deste domingo 04/12/2011. Com certeza esse final de campeonato brasileiro ficará para a história, independente dos resultados. Tudo pode acontecer, como ao ouvir o cool jazz do grande Miles Davis, que é a trilha sonora que me embala durante a  construção deste post.  

Segundo o mestre Fernando Pessoa, “Os Deuses são a encarnação do que nunca poderemos ser”.  Em dias como este domingo que se aproxima, milhões de torcedores irão se sentir Deuses, mesmo que por uma fração de segundos.


Nosso grande amigo Jota Roberto fez um excelente post nessa semana sobre o tema no site 3VV ( Terceira Via Verdão).  Deixo abaixo uma pequena mostra da reação de torcedores napolitanos após a emocionante virada sobre a Lazio em abril de 2011 para mostrar quando podemos nos sentir como Deuses.


Comentários

  1. Beleza de texto, Marcelo! Mereceria uma publicação em uma página esportiva!

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