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A Bola Não Entra Por Acaso

Após mais dois shows do Barcelona num espaço de uma semana, transformando dois jogos muito importantes em treino de luxo, o que dizer deste time que se reinventou nos últimos 8 anos?

Acompanhando os comentários e repercussões de mais esta aula de futebol, frase dita até pelo Neymar, o que eu gostaria de debater neste momento não é o futebol dentro de campo e sim a filosofia implantada dentro desta magnífica organização, que eleva o futebol ao nível de arte e conseguiu vivenciar em nível mundial o seu lema de ser Mais que um Clube.
Eu tive o prazer de conhecer a cidade de Barcelona e a região da Cataluña em Julho deste ano e, no meu ponto de vista, a apreciação e valorização do belo, do prazer, da alegria, do bem público em detrimento do bem privado, do consumo consciente sem gastos excessivos e desnecessários, faz parte do estilo de vida catalão e com certeza também se refletem nos valores e na cultura do FC Barcelona.


O título deste post é referente ao livro com o mesmo nome escrito por Ferran Soriano, que foi vice presidente Econômico do Barcelona no período de 2003 a 2008. A leitura deste livro é obrigatória para quem é gestor de futebol e para quem, como eu, espera algum dia fazer parte de um grupo de pessoas que querem transformar o potencial do produto Futebol no Brasil em realidade para todos os envolvidos dentro deste segmento que faz parte do negócio do entretenimento.



O que o Barcelona faz é impossível no futebol brasileiro? O próprio Pep Guardiola disse claramente na entrevista coletiva após o jogo, que custo é praticamente zero pois 9 dos 11 jogadores que entraram em campo hoje foram formados na base, incluindo Messi (Argentino), Thiago (Espanhol filho do Brasileiro Mazinho).
Tudo se inicia na definição do projeto, na Missão e Valores da organização. Qualquer semelhança com o mercado corporativo não é mera coincidência. Essa percepção é válida para praticamente todos os times de futebol no Brasil e também na América do Sul.
Tenho absoluta certeza que quem comanda os clubes, federações e confederações no nosso continente, fazem todos os esforços possíveis para manter a situação atual, pois desta forma, os desvios de dinheiro, corrupção, enriquecimento ilícito, perpetuação no poder, permanecerão como está.
Como falado anteriormente sobre os valores do estilo de vida catalão, provavelmente os valores que atualmente regem o estilo de vida no Brasil são muito diferentes e que refletem também no futebol.  Desde a chegada da Família Real Portuguesa no século XIX ao atual Brasil de Lula e da Rede Globo, os valores individuais estão acima do coletivo, gastar excessivamente é sinal de ostentação, o que vale é ganhar e levar vantagem em tudo, ser esperto, trabalhar pouco e ganhar muito, entrar para o serviço público para ter estabilidade.
Como mudar os valores dentro de um clube de futebol brasileiro tomando o Barcelona como benchmarking?
Para esta primeira resposta eu recomendo que todos assistam ao documentário efetuado pelo Discovery Channel, FC Barcelona – The Inside Story, sobre os primeiros meses da atual gestão do Barcelona no poder. O documentário está dividido em 9 partes mas vale muito à pena assistir.
Esse documentário mostra várias mensagens que servem para quase todos os atuais dirigentes dos times de grandes torcidas,  mas não necessariamente sejam grandes times da atualidade do futebol brasileiro:

1) Eleições Diretas através dos sócios torcedores
2) O presidente e seus vices, por estatuto, devem depositar US$ 1 milhão/ cada na conta do clube
3) A Presidência e seus vices vieram todos de grandes organizações ou com grande sucesso como profissionais liberais
Referente ao item 1, atualmente seria uma revolução no futebol brasileiro se este modelo fosse implementado em todos os clubes. Sobre o item 2, a meta principal de vários dirigentes que procuram assumir a presidência dos times brasileiros é desviar US$ 1 milhão cada um para suas contas particulares, totalmente o oposto do que é valorizado em Barcelona. Sobre o item 3, tem clube que o presidente e um dos vices são donos de restaurante e acham que podem gerir uma grande empresa.
Gostaria de transcrever um parágrafo da pagina 10 do livro " A Bola Não Entra Por Acaso" :
Na segunda feira, 16 de junho de 2003, o dia seguinte à nossa vitória nas eleições para a diretoria do Barcelona, fomos ao escritório do clube para começar e preparar a entrega de cargos que deveria acontecer nas semanas seguintes. Nesse dia, um dos gestores do Barça da época me disse:
 “Amigo, vou lhe dar um conselho, não venham aqui dispostos a aplicar grandes técnicas de gestão, nem com vontade de usar senso comum, nem lógica empresarial. O futebol é diferente, aqui o que conta é se a bola entra ou não entra. Se entrar tudo vai bem. Se for pra fora, tudo é um desastre. É uma questão de acaso”.
É meus amigos, há 8 anos era assim que os gestores do Barcelona pensavam o clube. O pior é que no Brasil a grande maioria dos dirigentes pensa da mesma maneira. Conhecemos “dirigentes“  de um time de São Paulo de origem italiana que, quando o time estava bem, aproveitou o momento para dar um golpe que está colocando em jogo o futuro futebolístico deste time.
A bola não entra por acaso quando há pessoas competentes dirigindo o presente e planejando o futuro, o que na vida corporativa chama-se Visão.
A bola não entra por acaso quando os dirigentes determinam que a Missão do time é sempre jogar com estilo técnico e vistoso, praticando este estilo de jogo em todas as categorias de base. Além disso, no Barcelona, o estilo de jogo é um valor supremo e, quando transformado em uma crença, faz com que o estilo de jogo seja imutável e que fique acima dos resultados.
A bola não entra por acaso quando a prioridade nas categorias de base é revelar jogadores para a equipe profissional e não somente ganhar títulos.
A bola não entra por acaso para um time que desde a implementação desse novo modelo de gestão ganhou 2 mundiais interclubes, 3 Champions League, 2 Supercopas Européias, 5 Ligas Espanholas, 1 Copa do Rei, 5 Supercopas da Espanha, totalizando 18 títulos em 8 anos de gestão, o que dá a incrível média de 2,2 títulos por ano. 
Junto com as conquistas, os valores tangíveis e intangíveis cresceram em progressão geométrica, transformando-se provavelmente na maior marca mundial do futebol e transformando este clube em um dos times que ficarão para a história do futebol mundial, juntando-se ao Santos de Pelé, o Real Madrid de Di Stéfano, o Milan de Gullit e Van Basten, o Honvéd de Puskas e o Ajax de Cruiiff.
Quem ganhou o jogo deste domingo foi o Futebol Mundial e quem perdeu foi o Futebol Brasileiro. Por mais que o Brasil ainda consiga produzir talentosos jogadores, mas em um ritmo inferior ao das últimas décadas, a lição que fica para todos os que vivem do futebol no Brasil é que é preciso mudar drasticamente a mentalidade que impera dentro do universo do futebol.  
Com exceção deste Santos de Neymar, que surgiu em 2010, há quantos anos o futebol brasileiro não tem grandes equipes, não revela novos jogadores fora de série, não cria novos estilos de jogo, não revela novos treinadores acima da média, não cria novos modelos de gestão com mais profissionalização?
A bola pode até entrar por acaso em alguns momentos, mas no ano seguinte, este mesmo time se transforma em um time comum, revelando que o que ocorreu no ano anterior foi um acidente. A hegemonia do futebol brasileiro, que parecia impossível de ser abalada, está sim sendo ameaçada e existe o risco de perdermos esta hegemonia caso não ocorra um choque de gestão dentro de todo o universo do Futebol Brasileiro.  
Senhores dirigentes de clubes, federações e confederações, treinadores, jogadores, imprensa e torcedores, o futebol brasileiro está indo para um caminho perigoso e que pode custar caro para a história futura do Brasil. Espero que todos os amantes do futebol se unam para conseguir mudar este cenário atual que em curto prazo não vejo perspectiva de mudanças, pois os valores e crenças devem ser radicalmente alterados e, para que esta mudança realmente ocorra, temos que começar já este processo.
Quem dará o primeiro passo?
Quem ficará no meio do caminho?
Quem vai viver de passado?
A hora é agora!!

Comentários

  1. Mais uma vez, excelente texto Marcelo.

    Futebol profissional é business... e os clubes brasileiros ainda não enxergaram (ou não querem ver) isso...

    parabéns novamente!

    verdaços.

    ResponderExcluir
  2. Pois é, Bense, assim como no video game, não só a equipe, mas a diretoria, o técnico e todos os torcedores também são coisa da imaginação!

    A realidade é bem mais brasileira!

    Obrigado por mais um texto a agregar nossas mentes!

    Beijos!
    Adriano Paciello

    ResponderExcluir
  3. Marcelo, obrigado por ter lido meu blog e deixado seu comentário muito positivo.
    Seu texto está excelente, muito melhor que o meu post, faz uma abordagem completa da situação que hoje vivemos no futebol do Brasil, onde todos os envolvidos se acotumaram ao jeitinho das coisas faceis, da conquista malandramente alcançada, do ser esperto, do malandro é malandro, mamé é mané.
    Infelizmente isso não se resume tão somente ao futebol, se assim fosse seria até fácil de resolver, mas a coisa é geral, politica, social, empresarial e envolve todo os setores de nossa sociedade, uma sociedade viciada e decadente e pior de tudo, individualizada.

    OBS: Quando tiver tempo de uma lida em outros textos escritos por mim ==> http://minhacronicasemanal.blogspot.com/ ou no site da Universidade do Futebol ==> http://www.universidadedofutebol.com.br/ pesquise procurando por Nivan Gomes

    FELIZ 2012

    Um grande ABRAÇO,

    Nivan Gomes
    Profissional de Futebol (Treinador)
    nivan_gomes@yahoo.com
    NOVA - ESCOLA BRASILEIRA DE FUTEBOL
    SÃO PAULO - BRASIL

    ResponderExcluir

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