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Futebol e Rock'n' Roll




Desde a semana passada estamos tendo a oportunidade de assistir ao Festival Rock in Rio que no passado já foi mais Rock e hoje está mais para Festival. Gostos musicais à parte, é muito legal ver os comportamentos, reações e manifestações do público. Conforme o comportamento do público é possível perceber de forma imediata a emoção dos artistas em cima do palco.

É muito legal  sentir a energia, a entrega, o envolvimento que vai acontecendo durante o show. A troca de energia entre platéia e banda é o verdadeiro termômetro da performance da banda.

Como sou um grande fã e freqüentador tanto de shows de rock como de jogos de futebol, pra mim o exercício de veneração, a emoção, o envolvimento e a entrega do torcedor/ roqueiro e os jogadores / banda é o mesmo.

As grandes bandas de rock atraem para seus shows uma legião de fanáticos que fazem qualquer coisa para poder assistir de perto seus ídolos. A paixão pelo  time de futebol também.

Tudo começa desde a hora de comprar o ingresso. Hoje em dia, tanto ir a um show como ir a um jogo de futebol, com exceção dos valores que são bem diferentes, já pressentimos o que veremos pela frente. Será que vamos conseguir comprar o ingresso que queremos antes que cheguem nas mãos dos cambistas? Será que vou conseguir comprar via internet pra não ficar horas na fila?


Após a confirmação da compra já começamos a sentir as primeiras emoções. Vibramos com o ingresso na mão, já começamos a procurar quem vai ao espetáculo. Começam as expectativas: quais músicas vão tocar?  quanto vai ser o jogo?  será que o vocal vai conseguir cantar aquelas músicas com tons mais altos? será que o craque saindo de contusão vai desequilibrar?

Após infinitas horas de vigília, chega o tão esperado dia de ir ao espetáculo. Desde as primeiras horas sentimos que o dia será diferente. Já acordamos ouvindo os acordes esperados, as jogadas que esperamos que sejam executadas pelos nossos ídolos. Com o passar do dia a emoção vai aumentando. Se for em um dia de trabalho  todas as atividades do dia se tornam secundárias, como se nesses dias percebemos o que realmente vale à pena na vida, porque estamos neste planeta. Percebemos que o ser humano se torna pleno quando as emoções e sentimentos afloram e deixam de lado tudo aquilo que são meros acessórios de nossas vidas para usufruirmos daquilo que realmente vale à pena.

It’s show time, baby!!

Nas horas que antecedem ao espetáculo o coração começa a bater forte, uma certa ansiedade começa a tomar conta, começamos a acelerar tudo para que nada atrapalhe a hora de sair de casa. Ligamos para todos que vão junto para que não se atrasem, começamos a pensar onde iremos parar o carro, quanto iremos gastar, com que roupa vamos, será que vai ter muita fila pra entrar ,etc. Durante esse momento as músicas vão tocando forte em nossos corações e mentes, tudo vai se tornando mais vivo, excitante, vibrante, cheio de vida. Como é boa essa expectativa!!!

Quando já estamos cerca do estádio já vemos as diferentes tribos se dirigindo ao ritual. A legião de fãs / torcedores com suas camisas, bandeiras, cabelos, tatuagens, cores, comportamentos, atitudes. Nos sentimos em casa, onde podemos compartilhar com nossos verdadeiros pares as mesmas emoções.


Quando chegamos na entrada a emoção já tomou conta, a euforia para que cada minuto voe até a hora do espetáculo. Já na fila de entrada todos já cantando, tomando sua cerveja, vibrando com o encontro de uma multidão de pessoas que em outras situações da vida são estranhos e que ,à partir da fila, esses estranhos se transformam em Blood Brothers.  

Ao passar pela porta de entrada é como que passássemos para outra dimensão da existência humana. Entramos em um estado de vibração que nos transformam de ordinários humanos em verdadeiros seres humanos em todas as suas nuances. Esses momentos são únicos, divinos, sublimes e por isso que nos tornamos viciados nisso. Em que momentos de nossas vidas sentimos essas emoções?

Agora é questão de minutos. Todas as situações tomam outros significados, outros matizes são percebidos, as emoções que ficam presas em algum lugar de nosso coração vão jorrando de dentro pra fora, o coração pulsa forte, nos tornamos vivos de verdade e deixamos de ser os robôs que a sociedade moderna tenta nos transformar.

A hora chegou, mas neste momento as primeiras diferenças aparecem, em um show as luzes se apagam e no jogo as luzes ficam mais fortes. Em um show tudo é permitido enquanto no jogo existem regras, em um show a garantia de que o espetáculo será de alto nível é praticamente 100% enquanto que no jogo, como o próprio nome diz,  tudo pode acontecer.

Diferenças à parte, as próximas 02 horas serão de muitas emoções. As músicas esperadas, as grandes jogadas, os grandes solos de guitarras, os dribles, os grandes vocais, as defesas dos goleiros, os gritos do público cantando junto com seus ídolos, o refrão das clássicas músicas, os gritos da torcida, o grito de gol, a galera pulando junto, se confraternizando, todos em uma mesma energia, onde já não é possível perceber o início, o fim e o meio, como já dizia o profeta Raulzito.

Em quais momentos é possível o ser humano vivenciar essas experiências, sentir essas explosões de emoções, a energia vibrando como que fosse algo palpável, sentir que estamos vivos de verdade? Em quais momentos é possível  perceber que podemos muito mais do que sair de casa pela manhã cumprir o horário e voltar pra casa vivendo em um estado letárgico e ao chegar no Natal fazer os mesmos comentários de como estamos ficando velhos, como o ano voa, lamentar as mortes da família, amigos e desconhecidos como que vendo a vida passar em um telejornal?

 A vida é para ser celebrada e dentro de um estádio de futebol ou durante um show de rock, com certeza não somente quem está dentro de campo ou em cima do palco mas também quem está nas numeradas, pistas, arquibancadas, camarotes também sente o fluxo da vida em sua forma mais plena.

Guimarões Rosa em Grandes Sertões Veredas escreve que viver é perigoso, mas com certeza no futebol e no rock’n’roll viver pode ser muito prazeroso.



Comentários

  1. olá Marcelo, tudo bem?

    mais uma vez, belíssimo post.

    esse paralelo feito por vc envolvendo partidas de futebol e shows musicais ficou muito bom!

    uma pequena diferença que vejo nisso... acho que são raras as oportunidades em que um público de show musical vaia, xinga, chama os astros de mercenários, etc, etc... já no futebol, deixa para lá...

    e brigas de torcidas "organizadas" ocorre aos montes... coisa que não vemos com fãs de grupos musicais...

    renovo meus cumprimentos.

    grande abraço em verde e branco.

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