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A minha arrancada heróica

A célebre foto da entrada do Palmeiras na final de 1942


Durante essa semana que passou, mais precisamente no dia 20 de setembro, foi comemorado o Dia do Palmeiras. Há 69 anos essa data se tornou eterna nos corações de todos Palmeirenses. Para entrar em detalhes eu sugiro a leitura do blog Palestrinos, que descreve com emoção e riqueza de informações esta marcante data da gloriosa história do Palmeiras.

Gostaria de aproveitar esta data para detalhar a minha arrancada histórica. Você pode perguntar : Como alguém que nasceu 27 anos depois do ocorrido pode ter passado por uma arrancada heróica?
Vamos aos fatos.
Como já mencionado em vários posts, meu velho pai sempre foi um Palmeirense de primeira e quando eu tinha por volta dos 5 anos de idade ele já começou a minha iniciação como mais um súdito da esquadra esmeraldina.  Não me lembro da data, dos detalhes e nem do resultado, mas sei que minha primeira vez em um estádio de futebol foi em 1975 num Palmeiras e São Paulo no Morumbi. Vitória do Palmeiras, segundo meu pai. Tenho poucas lembranças deste dia, a não ser de estar na arquibancada com os refletores acesos e mais nada. Além do meu pai fui neste jogo com meu tio Mário e minha tia Rute. Meu tio um são paulino fanático que sempre ia ao estádio.

Neste período em que estamos sendo iniciados no mundo dos deuses do futebol , por mais que o pai seja o responsável pela iniciação e mostrar ao filho as histórias dos seus ídolos, das conquistas do time do coração, existem os diabos que trabalham contra. Impressionante que na história da humanidade sempre este eterno embate entre o bem e o mal, o certo e o errado, o divino e o profano, enfim, todas as dualidades que as antigas culturas orientais sempre demonstram que somente existem dentro da nossa mente, apareceram durante minha iniciação.

Apesar da legitimidade que meu pai sempre teve sobre minha iniciação, meu tio , por interesses, começou a engendrar uma plano maquiavélico para tomar do meu pai esse direito. Muitas pressões foram feitas até que no final do ano o São Paulo se tornou campeão paulista de 1975. Eu me lembro muito bem do meu tio chegando na nossa casa, tentando invadir esse território sagrado de Palmeirenses com a faixa do campeão paulista e me deu de presente.

Imagine um garoto de 6 anos ainda em fase de iniciação sendo tentado pelo diabo, pela conquista rápida e barata? Como não sou Jesus Cristo, foi tentado pelo diabo e virei são paulino. Para meu pai aquilo deve ter sido como uma punhalada nas costas, uma traição digna de morte, acho que ele me sacrificaria em qualquer ritual de magia negra para expurgar o diabo do meu corpo.

Marcelo possuído aos 6 anos
Para você que não conhecia esta página colada da minha história, e que deve estar chocado com esse fato, vou revelar algo que nunca saiu do círculo familiar, mas como depois 36 anos esta ferida já virou folclore, divulgo a pela primeira vez en " la sinistra " uma foto que comprova como o diabo pode fazer das suas com pessoas inocentes. Não precisei ir para a igreja universal para expurgar o diabo, só posso comprovar que fui tentado, mas os deuses alvi- verdes fizeram o trabalho de me exorcizar.



Esse trabalho de exorcismo foi executado com uma cabeçada,  1 pé esquerdo, 1 pé direito e milhões de orações. Vamos aos detalhes do processo.

O Exorcista -  Parte 1
Não havia data mais marcante, minha primeira sessão de exorcismo foi no dia 04/07/1976 *. Estádio do Pacaembú. Fomos a meu primeiro Palmeiras e São Paulo com o diabo no corpo e bandeira na mão. Lá estávamos juntos, lado a lado na arquibancada meu tio Mário, minha tia Rute, meu pai com um crucifixo do tamanho do mundo nas costas, meu tio Orlando, meu primo Fábio. Naquela época sentávamos todos lado a lado na arquibancada, não havia divisões de torcida. Os deuses alvi verdes prepararam tudo conforme o destino que deveria ser traçado,  pois o poder de exorcismo do meu pai não teria o mesmo efeito se as torcidas fossem divididas. 

Nei
O jogo ia passando e nada de gol, até que chegou o momento da primeira sessão. Aos 45 minutos do segundo tempo, eu sentado bem em frente ao gol, a bola cruza a área depois de uma confusão e sobra para a cabeçada do Nei praticamente dentro do gol.  Meu pai pula sobre mim, que fiquei sentado segurado pelo diabo mas já com o coração começando a dar sinal de recuperação. Olhando para meu pai vibrando, xingando, pulando eu tive certeza que ele me olhava como se fosse para um adulto, mas tinha que fazer o serviço de exorcismo que foi efetuado naquele momento. Meu renascimento em 04 de julho começou graças a Leão, Valdir, Arouca, Jair Gonçalves e Ricardo, Pires e Ademir da Guia, Edu, Jorge Mendonça, Toninho e Nei.
Santo Nei, santo Ary, santos deuses do futebol, santos 39.788 pagantes , santos milhões de Palmeirenses que participaram desta sessão de expurgo do eixo do mal.

Ao chegar em casa minha mãe já me esperava com água benta para completar o serviço. O coração já batia no diapasão alvi verde novamente e naquela mesma noite eu já gritava que eu era Palmeirense !!!!
Parecia que o estado de letargia que havia me possuído estava sendo definitivamente extirpado.



O Exorcista - Parte 2

O jogo da confirmação do exorcismo ocorreu no dia 17/10/1976 *. Palmeiras e São Paulo duelavam pelo Brasileirão. Desta vez já livre da maldição rumamos ao Morumbi eu, meu pai Ary e meu tio Orlando. Para este jogo a sessão precisava ser de confirmação e os deuses alvi verdes enviaram 28.060 pessoas  para presenciar o fato.
Para mostrar que eu já estava livre do mal entrei no Morumbi segurando sozinho uma grande bandeira do Palmeiras comprada pelo meu tio na porta do estádio. Era o dia da minha definitiva arrancada.
Sentamos na numerada inferior que na época era amarela. Meu tio Mário já não estava presente mas, como era numerada, muitos  “ inimigos “ ainda tentaram me conquistar. O jogo começa e aos 10 minutos do primeiro tempo Ademir da Guia contra deixa o São Paulo em vantagem.
Meu  pai pensava: “Meu Deus será que os deuses alvi verdes não fizeram o serviço completo? Teremos uma recaída, ainda mais dentro da casa deles? “

Ademir da Guia

Eis que aos 36 do primeiro tempo, depois de um bate rebate dentro da área do São Paulo, Ademir da Guia chuta, a bola desvia em Nelson ( o Nelsinho treinador ) e empata a partida. Desta forma o pé direito do Divino entrou em ação para dar sequencia ao firmamento do exorcismo.
Todo mal devia ser definivamente expurgado da minha vida. O serviço não podia ficar pela metade e eis que aos 13 minutos do segundo tempo Edú Bala recebe uma bola pela esquerda, invade a área e bate cruzado de esquerda e a bola vai pra dentro do gol de Waldir Perez. Alegria, êxtase, prazer, libertação, a chegada ao Nirvana, o fim da dualidade.
O pé esquerdo de Edú Bala concluiu o serviço e eu já estava livre de todo o mal.

Edú Bala

Parafreseando a frase da Gazeta Exportiva do dia seguinte à eterna Arrancada Histórica de 1942:
Morreu um simpatizante palmeirense e nasceu um apaixonado loucamente pelo Palmeiras.
Batizado pelos pés de Ademir da Guia e Edú Bala, a cabeçada de Nei e pelo coração do Ary Apparecido da Silveira, o grande exorcista enviado pelos deuses alvi verdes para livrar o seu amado filho de todo mal.

Amém!!!
* Fonte : Almanaque do Palmeiras - Placar - Ceslo Unzelt / Mario Sergio Venditti

Meu velho Pai - O grande Exorcista



Comentários

  1. Bense, eu odeio o clichê "UMA IMAGEM VALE MAIS DO MIL PALAVRAS" - porém as suas só deixaram o óbvio alerta. Se olhássemos apenas as fotos, a história seria a mesma sem uma palavra sequer!

    Parabéns por mais um presente saudoso!

    Adriano Paciello

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