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O Resgate da Era de Ouro

Sentado em frente a tela do computador após mais uma semana observando à distância o infindável “ fogo amigo “ que tomou conta das ruínas das antigas alamedas do Palestra Itália, a sensação que sinto é de um enorme conflito interno entre a razão e a emoção.

Após mais de 30 anos acompanhando futebol , principalmente torcendo para o Palmeiras, sinto-me em uma fase de transformação de como lidar com todas as emoções que qualquer torcedor sente ao ver seu time em campo e agora também  somada às informações de como o futebol  é jogado fora de campo.

Creio que essa transformação começou após a fatídica e infelizmente inesquecível campanha que levou o Palmeiras ao seu ponto mais triste da história, o rebaixamento de 2002. Durante os anos 80 e 90, de uma forma ou de outra sempre vazaram informações dos bastidores, mas pela minha falta de maturidade, pela minha ansiedade de ver meu time campeão, eu deixava estas “intrigadas da imprensa, da oposição” de lado e só olhava para dentro de campo esperando o dia de gritar “ É Campeão ! “.

Como era bom Torcer e assistir Futebol durante a infância e adolescência. Os jogadores eram levados ao nível de heróis, que alimentavam os sonhos e desejos da garotada, com suas jogadas mágicas, gols maravilhosos, defesas milagrosas. Os treinadores e dirigentes completavam o Casting de atores deste mundo mágico que o Futebol da adolescência tem o poder de fazer com o imaginário dos garotos.

Ir ao estádio era um dia ímpar, desde o momento que acordávamos,  a ansiedade e expectativas iam aumentando a cada minuto. Na hora de sair pro jogo era como levantar âncoras para o mundo dos sonhos, todos os garotos exprimidos, os menores no porta- malas, aguardando para chegar ao momento de assistir a seus heróis de perto. Parecia que ao subir as escadas ruma à arquibancada do Jardim Suspenso do Palestra Itália, estava sendo embalado pela letra e melodia da inesquecível Stairway to Heaven dos lendários Page e Plant. A cada vitória, nos sentíamos como soldados vitoriosos. Estudar para prova ficava fácil. Sair à noite e ir para as festinhas regadas a Cuba Libre, Disco Music e Lona na garagem era mais divertido. Conquistar uma garota ficava mais fácil, pois tínhamos ganhado a batalha. O que nos impediria de atingir nossos sonhos e desejos?

Infelizmente o tempo passa, como dizia Fiori Gigliotti, e com este passar do tempo, vamos ficando maduros, vivendo outras experiências de vida, nos tornando mais críticos, alguns valores vão diminuindo e outros valores vão tomando espaço em nossas vidas como o casamento, filhos, trabalho, etc. 

Durante este turbilhão de mudanças que ocorrem na vida de qualquer pessoa, a paixão pelo Futebol pode continuar igual, maior ou diminuir, conforme a história que vamos construindo.

O que nos mantém ligados com a mesma paixão e emoções que o seu time  proporciona?

Para mim os sentimentos que nos mantém ligados como um cordão umbilical à esta paixão são as sensações e experiências que vivemos durante a fase que desenvolvemos no início desta relação. Como descrito nos dois parágrafos acima, eu considero este período a  Era de Ouro  da relação entre o torcedor e seu time.

Creio que com o passar dos anos, ir ao estádio já não é tão legal quanto era, devido a forma como o torcedor  é tratado, desde o péssimo transporte público que faz com que tenhamos que ir de carro ao tratamento de gado para entrar no estádio,  a falta de respeito das pessoas ao sentar no seu lugar ,ao horário das partidas , a saída do estádio até chegar em casa novamente.

Ufa!!  Parece a Odisséia de Homero.

Com certeza o saldo desta saga é negativo se formos pensar somente nos transtornos e custo benefício tangíveis. O que transforma este saldo em positivo é o intangível das experiências, vitórias e conquistas que os novos heróis ainda podem efetuar naquela parte adolescente que ainda guardamos em nossa memória afetiva.

Com o passar dos anos, se o saldo negativo só aumenta ( menos vitórias, conquistas, títulos) este mundo dos sonhos vai ficando distante e o que acaba restando na essência dos torcedores é o que ficou no passado. Relembramos  vitórias, títulos e conquistas  antigas, como se tivéssemos uma miopia mental, fazendo com que precisemos usar óculos para relembrá-las. Graças aos Jornais velhos guardados, You Tube, DVDs, esta miopia pode ser corrigida.

Se formos criar um extrato da atual conta bancária do Palmeiras com seu torcedor, segue a relação dos últimos lançamentos:

 - as manchetes do Palmeiras são estampadas com termos como ratazanas, traição, grupo rachado

-  A torcida gritando “Time Sem Vergonha” por anos e anos seguidos

-  O  “ Gladiador “ que lutava até dar seu sangue agora parece que luta por dinheiro

-  “ El Mago” jogando como um limitado aprendiz de feiticeiro

- “ São Marcos “ com seu manto branco fazendo seus últimos milagres no crepúsculo da carreira

- Os colunistas em seus vários matizes escrevendo sobre o Palmeiras com ar de lamentação, nostalgia

- Os principais e antigos rivais e seus torcedores tratando o Palmeiras como um velho moribundo que não põe mais medo em ninguém

- Os juízes sem medo de errar, mesmo com o Palmeiras jogando em casa contra equipes de menor tradição

Até quando, mesmo com os fatos do mundo real e tangível, o saldo da conta será positivo?

Como tirar nossa conta  emocional do negativo?

Quem serão estes super heróis que podem conseguir esta missão Homérica?

A resposta é única:

 Os Verdadeiros Torcedores  que, mesmo com  saldo negativo, ainda tem no fundo do coração  o desejo do Resgate da Era de Ouro. Aqueles que acreditam que ainda é possível fazer com que  aquele garoto permaneça vivo dentro de nós e que acredite que é possível resgatar do fundo da alma as mesmas sensações das décadas passadas e que podem transformar a vida de novos garotos que ainda tem seus sonhos a serem vividos, perpetuando assim a espécie dos torcedores apaixonados.

Marcelo e Marcio (primo Corinthiano) - 1976





























Comentários

  1. É... há coisas no futebol que são inexplicáveis.

    até quando o Palmeiras retribuirá dessa forma todo o amor que nutrimos por ele?

    verdaços,

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